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A mostrar mensagens de abril, 2026

Desnecessário

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  Não recuso, nem acuso a tua tristeza. Apenas quero dizer-te: não lhe somes o rancor nem o julgamento. Ou seja, mais um fardo... Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Quem mora aqui?

Já não és aquele que outrora tanto amei, que, como um sol, me tomou de modo ardente; Aquele a quem ainda ontem me entreguei e sensual me arrebatou num beijo quente. Daquele claro amor, depressa te cansaste... Nesse teu olhar seco que tanto espelha a frieza, Num rigoroso descuido, não vês no que me tornaste, que me perdi ao saltar da alegria para a tristeza. Que aposento sombrio é esta noite que não tem fim, onde o segredo não se desvela... é apenas teu. Enquanto lágrimas loucas se riem de mim, eu choro o amor que de mim se perdeu. Estou tão longe de saber quem és agora; sinto que também já não sei quem sou. Parece que fomos os dois embora e que aquele amor nunca aqui morou! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Maria, tão bela!

Foi numa tarde quente que sentiu o coração apaixonado e acreditou... De pernas bambas e olhos arregalados, entregou-se, crente de que o amor se abrira como um rio. Mãos subtis desordenaram-lhe a pele, e um corcel vigoroso e húmido entranhou-se nela, igual a uma centelha acesa. Ofegante, trincou os lábios enquanto o mel lhe rasgava a selva. Depois da paixão consumada de Maria desonrada mulher imersa na desgraça, ah, Maria, Maria tão bela, perdeu toda a graça! Assim a opinião alheia exclama, indiferente se está a tentar lançar uma pérola à lama. Que estranho encanto sente o homem em provocar, no mais frágil, o pranto. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Entreguei-me com prazer

Entreguei-me com prazer, quem me pode acusar? Entreguei-me como muitas mulheres na juventude esquecendo que nos acusam de pecar os grandes pecadores deste mundo cego e rude. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Maria

Este livro é de Maria que ama a luz, ama a vida, ama o afeto, ama o abraço, ama o sol, ama o luar a mesma que nem sempre se acha, de tão perdida nos desafetos que a impedem de se encontrar. Na dificuldade em descobrir amanheceres serenos num mundo tantas vezes rude, ela acorda, lavra rochas e derrama a própria seiva em terrenos pouco amenos, no anseio de encontrar na vida, a plenitude. Repetidamente, silenciosa, perde-se na tentativa de entender o que à sua volta acontece. São muitas as vezes em que lhe dão outro nome... São tantos os que julgam conhecê-la, e nem uma só vez chegaram a vê-la. Quantas palavras absurdas lhe tentam o futuro construir e ela na dureza do enredo humano tenta cinzelar as asas. Que loucura, a falta de altura que lhe dão! Enquanto para gerar vida não se inventar outra forma: toda a natureza humana está sujeita ao ventre da mulher. É, por enquanto, norma. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Almas desidratadas

Já não te peço que me escutes. Tenho de me restringir a esta irremediável passividade, fingir que não entendo a tua excessiva impaciência. Quando aumentas o volume da tua voz, já sei, estás ávido por silêncio. De mim apodera-se uma dor que me corrói a garganta. O que tu não sabes é que já nem à recordação dos dias contentes que tivemos eu recorro. Fechei essa janela... Não existe mais razão para continuar aberta. Somos almas desidratadas pelo abuso dos hábitos. A nossa linguagem foi-se transformando e fizemo-nos estranhos aos abraços que mantinham a doçura da partilha. Sabes, mesmo assim, numa última tentativa, eu queria dizer-te: Lá fora canta um passarinho... Mas calei-me ao perceber que perderas aquele ar de rapazinho que a rir, ia atrás de mim até à janela e, abraçados, caíamos naquela poesia mágica estendida pelo nosso horizonte. Perdemos as asas de fogo e desabamos no deserto... Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Poderoso gigante

Dentro de mim há um gigante, tão grande e ninguém o vê! Por vezes esconde-se, por vezes cresce, cresce... Tantas são as vezes que se ergue e arrebata a angústia, destruindo-a num gesto tão poderoso quanto ele. Com a sua mão enorme, esmaga infinitos pesadelos. Só pode mesmo ser um gigante este poderoso poder de vencer as poderosas pedras, as desmedidas barreiras que surgem das avalanches traiçoeiras e inesperadas da vida! E quando eu penso que o meu escudo protetor submergiu comigo, emerge nesta forma de gigante que ninguém vê, nem, por vezes, eu, mas que nunca deixou de estar... dentro de mim! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

A tarde vai a meio

  A tarde vai a meio e chove, meu amor. As árvores e as flores deixam-se regar pelas gotas doces que caem do céu. É como quando eu e tu passeamos pelos caminhos onde um oculto esplendor brilha num olhar que é apenas meu e teu. A tarde vai a meio e chove, meu amor. Tudo fala de tranquilidade, onde o amanhã será apenas o amanhã, e o hoje a certeza de que, ontem, um sorriso, alheio à dor, se entrelaçou na tua e na minha mão, falando serenamente de amor! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Lutas invisíveis

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       A casa parecia cheirar apenas a água a ferver.  Tem cheiro, a água quando ferve? Neste caso, sim. As bolhas libertavam o cheiro da pressa. Saltavam, ansiosas por transformar as batatas em puré. Entre os meus dedos da mão esquerda, um pobre tubérculo gemia, enquanto a direita manejava a faca e o atingia com duros cortes.       A poesia... ah! A poesia ficara à minha espera. "Que espere por melhores horas" — pensei. Naquele momento, a poesia era outra; a dos tachos, à luta com o meu cansaço. Mais um pouco, o derrotado tubérculo seria um vaidoso puré de batata nos pratos, que já esperavam na mesa.      Os convidados estavam ausentes. Encontravam-se na sala ao lado, mas ausentes. Eles não demonstravam nem um pingo de curiosidade. Se assim fosse, teriam movido a cabeça, enquanto eu desabafava o meu cansaço, batendo com mais força do que o necessário com a colher de pau nos ombros do tacho que suava a bom suar. E o pobre pano ...

Vestígios

Sinto na tua camisa lavada, neste tecido que abraço a tua pele marcada, do teu corpo que adormeceu vencido pelo cansaço, descansando sobre o meu. Lanço o olhar àquela hora em que o teu respirar se perdeu no meu peito que agora respira triste sem o teu. E sobre este tecido que aperto cai uma lágrima cansada como um grito que cai certo na tua camisa lavada! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Aqui

Despeço-me lentamente da noite que se vai; sinto o dia ainda como sombra encantada, e ouço a chuva que mansamente cai, acordando, inconsciente, a casta madrugada. Entre a noite e o dia, a incerteza me enlaça, hora nua, insensível e de rudes melodias, saqueia da minha boca a tal graça que apagaria, da minha alma, as rugas fundas e frias. Talvez eu sorrisse contente após esta noite sempre acordada, se visse o sol nascer no poente e o sentisse, como eu, estrela desorientada. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Lágrimas

Gotinhas húmidas e transparentes queimam o meu rosto cansado! Mas não são lume! São lágrimas fortes e quentes, são um grito silenciado num silencioso queixume. São um livro fechado tão quase depois de o abrir, são o poema inacabado que a meio quis partir. E nessa lágrima transparente, nesse silencioso queixume, morreu o sorriso inocente numa gotinha quente que queima sem ser lume! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

O corvo e a tempestade

A noite ficou escura e o vento sopra torvo, a chuva bate tão solitária na janela, talvez fuja do agouro do corvo que bate as negras asas atrás dela. Por que chove assim, canta o corvo e sopra o vento, se nem sequer é dezembro, mas sim agosto?! Espreito pela vidraça e vejo o vento violento a fazer girar o corvo que brinca bem-disposto. Murmurei, lenta, alguns ais, sem entender a negrura dos espaços celestiais, para, de seguida, sorrir enternecida ao perceber que, enquanto eu fiquei desorientada, aborrecida por uma tempestade que chegou perdida, o corvo abriu as asas, quis brincar... quis viver! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Gloriosa jornada

Um verso de amor no bico da ave, que em pequenas porções oferece a força à pequena cria, que recebe a dádiva com alegria. É uma gloriosa jornada: do bico da mãe ao bico da cria. Felizes das aves cuja grandeza abrange a veracidade do verbo viver, pois ainda sabem que toda criatura que vive tem direito a alimento. E o amor mistura-se, bico abaixo: completo sustento. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Papillon

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  Nariz longo e afilado entre os olhos tristes e derrotados. Ossudas maçãs do rosto reprimindo questões esgotadas. O medo serpenteando-lhe o cérebro. Entre a chávena do café e os cotovelos, um papel branco. A mão esquerda segurando o queixo, enquanto a direita entorpecida pela rotina do trabalho fabril, desenhava um cavalo.     Subitamente, viu o seu colo magro invadido por um cão de pequeno porte. Apesar do seu isolamento na esplanada barulhenta deixou que todo aquele pelo branco se acomodasse nas suas pernas. O cão colocando uma das patas sobre o papel, saudou:     — Olá, fantástico homem.     — Fantástico sonhador! O mais importante que faço na vida é olhar garrafas correndo numa passadeira. Sou um ridículo.     — Se tu te achas um ridículo, ridículo serás. Um cavalo?     — Rocinante? Talvez como Dom Quixote, conquiste a Dulcineia que almejo; ela quer-me herói. Queria tanto dançar com ela, mas ela diz que fico melhor a um canto. ...

Pintura

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  Deixei-me apaixonada, descansar... como o rosto pintado numa tela, belo instante; sobre o teu colo disposta a amar Escrava dos teus dedos... delirante! Sou como o pano pronto a colorir, vaporoso... Que se estende e submete à pintura, onde tu hábil pintor, virtuoso, juntas os nossos corpos... aquarela pura! E depois dos nossos instintos cansados, descansas os dedos, iguais a pincéis suados... E eu plácida, no teu peito, descontraída... Que pintura real! Que plenitude! Que beleza! Que deixa num quadro a virtude, a certeza de que o amor é o plasma da vida! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Apenas o que é necessário

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  Quero olhar nos teus olhos e, com um gesto de mão, nos nossos lábios calar explicações e desculpas que bloqueiam o que, naturalmente, deve existir... E aprenderemos, juntos, a viver apenas o que é necessário. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Viagem mágica

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  O sol parecia um girassol que, cansado de viver na terra, fugira para o céu, as nuvens pareciam bordadas de dourado pelo sol que parecia um girassol. O burrinho, atento ao caminho, subia o trilho de pedra e terra, balançando as cangalhas devagarinho, subindo o trilho de pedra até ao cimo da serra. O meu braço, como um galho meio bambo, caía das cangalhas que balançavam devagarinho; sentia o beijo das ervas que, beijadas pelas libelinhas, ondulavam fazendo vénia ao burrinho. Pendurando a cabeça, quase fazendo o pino, via o mundo ao contrário, até a D. Josefina, no seu xaile preto dobrado em triângulo, benzendo-se, dizia: — Cruz credo, Sr. Francisco, olhe a sua menina! O burro de orelhas grandes e crina pequena deitava de soslaio um olhar vivaço, zurrando para o cão da D. Josefina, que, na tarde amena, ladrava ao cordeiro que lhe respondia balindo. Horas depois, descendo a serra ao teu lado, de mãos dadas, ouvia-te cantar, enquanto guiavas o burrinho de lenha carregado sobre as can...

A paz

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 Às vezes a paz sai apressada da minha vida, parte e parece não fazer caso do que eu sinto, ficam as vozes alteradas, a palavra irrefletida e eu fico no deserto, com o prelúdio da paz extinto. Que se calem as vozes por um instante, que renunciem a esse irrisório enredo, que a fúria seja delírio, inspiração distante, que a ira se levante tarde e se deite cedo. As palavras alteram-se, cegas e sem rede, são braços traiçoeiros que a agitação atrai, grita aquele, grita este, irado, cheio de sede de uma razão que enfastiada, também se vai. Por isso, procuro o meu repouso longe de tanta tolice, no terno ninho que a paz fez com carinho ardente e distanciada das sentenças: tu disseste, eu disse, achego-me a ele, enrosco-me lenta e docemente! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Nada

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  Quis dar voz ao silêncio, momento louco, quis ganhar a vida... ser gente enfim; não veio a voz... morri um pouco e, em silêncio, dei de novo por mim. Tento resistir à vontade de nada ser, mas não me sinto capaz ou resistente, pois esta vontade de nada querer leva-me ao vazio onde nada se sente. E esta dormência que me atrai, este acreditar que nada sou, abraça-me na escuridão e, ai... reforça a solidão que me encontrou! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

A dor que me causou, passou.

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Àquele a quem cheguei a odiar, já não odeio. A dor que me causou, passou. É-me indiferente, já não o receio. O medo que outrora me dobrava, acabou. As palavras que me dirigia com desprezo para que dos meus pés o chão se afastasse foi abismo ao qual ele próprio ficou preso, tal era o desejo dele que eu não me bastasse. Após entender tão agressivos areais, desejo que às suas raivas as reduza a nada, que sinta que não lhe servem mais para que não se voltem a encontrar na mesma estrada. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack  

Mais do que arte

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  Mais do que arte, eu chamaria de sentimento àquele que amando o mundo, na vida se concentrou e na terra pintou um quadro que torna real este momento, onde a chuva canta a canção que o vento lhe ensinou. A nuvem negra pelo relâmpago aclarada, balança no ar sem o menor sinal de dor e vestida da sua natural realeza, aceita encantada a forte voz do trovão que lhe sabe falar de amor. E cada gota de água é como um beijo na terra, onde o solo se sente como ventre encantado, germinando a semente na planície ou na serra, demorando nos meus olhos como um beijo demorado. A quem devo agradecer tamanha beleza ao poder sentir que na noite tanta vida se acende, se a nuvem esconder a lua, o sol a fará luz acesa e que a chuva se liberta ao cair na folha que a prende. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Insónia

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  Como sombra de um sono que não vem, como estrela de um firmamento já conhecido, tento sentir o repouso que a noite tem, mas se a noite vem, o sono parece ter fugido. Tropeço nos tentáculos da escuridão mas ninguém ouve... como podem ouvir? Esta é a hora longa que acordou a solidão e quando o ruidoso mundo se calou para dormir. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Guerreia

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  Guerreia no porto onde se batem as tuas tristezas, aprende a coragem no rio que, nas margens, traz a bravura de um guerreiro que luta por certezas e que deseja desaguar na foz, onde mora a paz! Resiste ao desespero de querer desistir; resiste à guerra das sombras de vida sombria; foge de onde te roubam a liberdade de sorrir; liberta-te para a luz que traz a harmonia! Rasga de ti o medo do mundo e, na vida, avança; vive na certeza: quem quer, sempre alcança, mesmo que saibas que o medo, por vezes, voltará... Deixa que te contagie o mundo da alegria, ainda que alguém triste te diga ser fantasia. Se compreenderes a vida, o sol não tardará! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Como falar de verdades a alguém?

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  Como falar de verdades a alguém cheio de rancor, de olhos focados apenas nos erros cometidos por quem nem sempre foi autor de atos errados? Escavar o poço dos defeitos alheios é viver em constante ressentimento, é expor a alma aos olhos das sombras e sujeitar-se ele próprio ao sofrimento. Livre-se o alvo de o levar a julgamento. Não é fácil, mas o que fazer? Jogue tudo na cave do esquecimento e apague a guerra que o outro teima em acender. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Neve

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  Imaculada neve, leve como uma pena, absoluta alvura, mil cristais todos juntinhos, cheia de graça cai nesta tarde serena, reluzente véu que se estende pelos caminhos. Neve atrevida adiantando o anoitecer, vai caindo, beijando esta e aquela face, a sorrir, expõe-se bela para toda a gente ver igual a dama que sabe seduzir. Bailarina que desce girando lentamente, tecedeira de algodão que encanta o sol que, por vezes, descontraidamente se deita sobre a imensa colcha branca. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Versos tristes

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  Amo-te como sou! Por que ser diferente? Se não te amasse como sou, não seria eu... Ama-me sem tentares que seja outra e sente que todo o amor que tenho para dar é teu! Não deixes que morra em pedaços a longa viagem que fiz até ti... até nós! Deixa-me adormecer eternamente nos teus braços; não me deixes retornar a mim... não nos deixes sós. Não me faças sentir cruel e fria! São como vendavais, nem sabes quanto, que me enlaçam em cadeias de agonia: as palavras dos teus lábios que te fazem parecer santo. Serei eu erva daninha de rebento violento, ou será um estranho impulso pelo desejo, uma estranha luta entre a razão e o sentimento quando tão inquieta te procuro e não te vejo? Destino estranho o desta noite fria, onde a minha alma no silêncio se aninha e se debate em versos com tão pouca alegria, ao serem escritos por uma tristeza... que é minha! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Liberdade

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  Quando os meus sentimentos sentem a hospitalidade de promessas que secaram, experimento a aventura de passear pela arena dos sentidos e deixo viver os pensamentos por uns tempos perdidos, na esperança de que do solo seco rompam horas verdes e frescas. Que o cheiro a terra suja se transforme no aroma do junco, que ele rompa pelas pedras e que transforme, as barreiras desse ciclo fechado, num rio onde as gotas de água borbulham e têm a liberdade de escolher... a liberdade! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Dimensão paradisíaca

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  São liberdade os pássaros do céu são pátria sua, os seus voos de amor enchendo as florestas de cânticos alegres em reverência ao criador. São violinos os sons do vento nas árvores vestidas de folhas que se fazem jardins no firmamento Dimensão paradisíaca onde tudo é certo, onde o nada é completo Serei parte desse mundo puro se não me fizer preguiça no leito do esquecimento, pois há portas que se abrem, que me ascendem a espírito, entre os jardins dos céus e os violinos do vento. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Ninguém usa

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  Num dos cantos da varanda, uma mesa de madeira com quatro cadeiras esperando alguém. No outro canto, uma cadeira de balouço. Também vazia. As flores medram ao sol e os pássaros apresentam-se alegres. O chão da varanda acabou de ser lavado mas ninguém sabe, ninguém veio ver. A mesa ninguém usa e as cadeiras estão sempre arrumadinhas. Nunca se escuta o estalar de uma cadeira. Ninguém se senta nelas. Mas todos devem estar felizes; do interior da casa não saem ruídos. ... eles lá dentro e eu aqui fora vendo o gato brincar na relva e inspirando o aroma de um chão acabado de lavar.... Há um traço próprio da minha infância nos variados tons das rosas, nos malmequeres, nas folhas aromáticas das sardinheiras. ... e eles, lá dentro, continuam silenciosos, acordando as suas emoções pelas avenidas da Internet... O chão de uma varanda acabado de lavar é deslumbrante, é um atalho sorridente até ao jardim relvado, onde refresco os pés e concerto a alma. ... e eles, lá dentro, continuam silencio...

Esse luar atrapalha

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  Esse luar atrapalha, não me serve mais! Colheu-me como quem colhe, distraído, uma flor esquecendo que sou igual às flores reais que após colhida perde todo o esplendor. Com um certo comodismo deixei-me ficar, esqueci o jardim, onde a luz era alimento, deixei a raiz longe da fonte, a secar, e o caule doente, murmurando sedento: — Esse luar atrapalha! Por longo tempo ele escondeu, discreto, que nem todos os luares são afetos. Quero voltar ao útero materno e dentro de mim reaprender a fidelidade da ave ao voo, e voar, renovar a raiz, curar o caule, ser jardim, sem ao velho retornar, pois, ah — esse luar, esse luar atrapalha! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Atritos

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  De pé sobre o meu pé fico sem pé extasiada com o belo lençol da noite tão bem bordado de silêncio Silêncio... Silêncio, até que o próprio silêncio acorda os meus dias, os meus entardeceres, as minhas noites e as minhas madrugadas... Instala-se a enorme guerra entre os secretos conflitos. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Aquilo que o artista esqueceu

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  A trovoada, a chuva e o sol, que, apesar de tudo, ainda espreita, são uma obra de arte esculpida e exposta nas linhas do artista; mas ele esqueceu da tua brisa fresca na minha pele. A cortina esvoaça leve pelo quarto e fala do vento. A tarde cai tranquila, e eu, quer feche os olhos ou olhe o tempo, crio, de modo simples, mas intenso, aquilo que o artista esqueceu: A tua brisa fresca que me aquece, trecho lúcido deste amor imenso! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Nunca pela metade

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  Se a hora assombra saio da sombra; a vida é demasiado querida para a viver perdida de intimidade com quem gosta de viver pela metade. Na vida a que me dou sou aquilo que sou; amo a doce sensação, esta de voar ao tocar com os pés descalços no chão. Tão bom poder eu nesta doce sensação sentir que o chão também é meu. Que terna unicidade, alcançar a eternidade na simples ação de uns pés descalços no chão... Viver por inteiro nesta simplicidade, da terra sentir o cheiro, por inteiro, nunca pela metade. A vida é demasiado querida para a viver perdida, de intimidade com quem gosta de viver pela metade. Se a hora assombra saio da sombra. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Eis tu

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 Eis tu, vestida de um universo que tento alcançar com o longo braço da imaginação. É longa e alta a escada que permite a entrada no mundo de onde vieste e que guarda tantos segredos. Tenho amor a sobrar para chegar ao teu reino que adivinho pleno de ruas pavimentadas de vida. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Aura noturna

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Concentro os sentidos na caída da noite, que calmamente sopra o sol, apagando-o devagarinho, como quem sopra delicadamente a chama de uma vela. O meu gato estende o corpo sobre o tapete, e um piano ressuscita os melhores clássicos: Mozart, Beethoven, Chopin... O gato dorme e eu escrevo, divago... Encaminho o olhar para o afável movimento das árvores, onde o vento poeticamente as vai amando... Rumo à Terra, o néctar da poesia, numa aura noturna, orna as janelas de cada lar, num ato puro e silencioso que carrega em si um poema de amor para um mundo que precisa de aprender benevolência e perdão. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Noite em mim

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  A noite que vive séculos, vive sem pressa e trespassa-me a alma, calma e altiva; algema a vida numa paisagem que atravessa, esta hora de cinzas, outrora tão viva. Parece estreito o espaço por onde se estende; por isso, ela passeia, estendendo-se até mim, exibe-me a sua cauda e não entende que pode ser noite antes do dia chegar ao fim. Manuseia-me a alma sem ainda entender que os lírios brancos podem amarelar, que as rosas no verão podem morrer e que uma estrela pode deixar de brilhar. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Choremos juntas

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Também choro porque não posso abraçar-te neste teu momento de dor. Choremos, amiga, ainda que os corpos separados, as almas juntas. Para que um dia, no reencontro, nada nos separe. Nem a dor, nem as lágrimas, nem as vozes confusas ao nosso redor, cada uma opinando segundo o que pensa. Indiferentes ao que sentimos, ao que somos. Chorar é não desistir. Choremos juntas para que um dia, felizes, de mãos dadas, prados floridos e iluminados se estendam como promessa cumprida. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack