Honoré de Balzac


       Quando li Balzac pela primeira vez, tinha doze anos.
    Nessa época, na minha mente ainda infantil, imaginava Balzac como um super-homem. De grande porte, poderoso, com tronco e braços capazes de abraçar e proteger o mundo.
    Os seus grandes romances, na estante da sala da minha avó, assim como a maioria dos livros nela colocados, chamavam-me para conhecer as personagens que por ali habitavam. Sem hora marcada para entrar nem para sair, ali ficava eu, explorando as características de cada uma, deixando-me levar por sentimentos ora tristes, ora alegres; ora de compaixão, ora de revolta. Imaginava o autor a construir cada detalhe dos mundos que absorviam tanto de mim e muito me devolviam.
    Talvez pensem que eu era muito nova para tal literatura, mas, assim como qualquer livro que li durante a minha adolescência e juventude, ajudou-me a perpetuar o amor pela leitura e pela escrita.
    Voltemos a Balzac. Hoje, ao voltar a lê-lo, apercebi-me de que não existem homens todo-poderosos e que a nossa imaginação lhes coloca um rótulo raramente certo. Assim como todos os homens, Balzac não viveu imune ao sofrimento, à solidão, à revolta, à incerteza...
    Hoje, imagino-o como o mais velho de quatro irmãos, filho de uma mulher trinta e dois anos mais nova do que o marido, que encarava os filhos como a parte aborrecida do casamento.
    Diante dos meus olhos passa a cena: ele, bebé, entregue a uma ama de leite; a criança que passou a maior parte da infância num orfanato. Os castigos a que foi submetido por mau comportamento. A obsessão pelos livros para acalmar a revolta.
    Assim como muitos grandes artistas, provou o insucesso de algumas obras e o endividamento provocado por maus negócios.
    Apesar de tudo, Balzac era um homem apaixonado. O seu grande amor por Eveline Hanska, a polaca, obrigou-o a uma longa espera para poder casar com ela. 
    A demora não se deveu apenas à espera pela morte do marido da sua amada. Depois de enviuvar, Eveline levou nove anos a decidir casar-se com Balzac. 
    Vejo Balzac viajando, cansado, para a Polónia para tornar realidade o sonho de casar e levar para França a sua amada. Regressou ao seu país já casado, mas viveu apenas mais alguns meses. Faleceu em agosto desse mesmo ano.
    Cinquenta e um anos é muito cedo para partir.
    Teria sido amor o que o levou a esperar por Eveline? Ou a ilusão de que a felicidade apenas pode estar no lugar que imaginamos?

Ada Abaé

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