segunda-feira, 18 de maio de 2026

RIDE THE WIND RANCH

 




    A duzentos e dezoito quilómetros de Edmonton, no centro-oeste de Alberta, Canadá, na confluência dos rios Clearwater e North Saskatchewan e com uma longa história que vem desde o século XVIII, fica situada a pequena cidade Rocky Mountain House. 
    Ela serve de marco na mudança, não apenas da estrada, mas de toda a paisagem que nos conduz em direção ao Ride the Wind Ranch. 
    Funciona como um filtro, esvaziando-nos da poluição sonora e de toda a correria do dia a dia, a estrada de gravilha que rompe léguas e léguas da frondosa e extensa floresta.

A PRIMEIRA VISITA AO RANCHO E O CAIR DA NOITE



Vinte e um quilómetros depois de Rocky Mountain House, surgiu a indicação: "Ride the Wind Ranch". Quanta vida palpitava, protegida por toda aquela extensão de árvores! Do lado esquerdo, os grous-canadianos conviviam em paz com os bois. Do lado direito, dois coelhinhos brincavam livremente. Paramos ao lado da casa. No cimo das curtas escadas de madeira, à porta de entrada, surgiu Kathy Rissi, que nos acolheu calorosamente. Depois de termos dito olá à nossa cabine, fomos até ao alpendre do escritório do Sheriff, onde nos esperava uma churrasqueira ao ar livre. Enquanto os alimentos libertavam os seus aromas, alguns cervos olhavam-nos curiosos e, sobre as nossas cabeças, as irrequietas andorinhas batiam energicamente as longas asas. Saboreamos o jantar enquanto o sol ia dourando as copas das árvores. Devagarinho, foi deixando o céu, meio violeta, meio alaranjado. Sem pressa, chegou a noite. E a lua era o lampião para que as magníficas silhuetas dos cavalos, lenta e graciosamente, se misturassem nas sombras. Dez da noite e nós descansávamos na confortável cama da cabine, onde a internet e a televisão não ocupavam espaço. Pela mão do silêncio, a quieta noite animava a nossa imaginação infantil; rimos e cochichamos histórias, imaginando-nos crianças assustadas.
  

HISTÓRIAS DE VIDA E CONEXÃO COM A TERRA


    Dez da manhã. Enquanto degustávamos o pequeno-almoço preparado por Kathy, as palavras fluíam.
    Kathy explicou o que os movera, a ela e ao marido, a sair da Suíça: mais espaço, silêncio, contacto com a terra e com a vida animal.
    Contou-nos uma história engraçada:
    — Um verão, o nosso gado pastava nas nossas terras, do outro lado da estrada. Como o pasto é muito grande, com algumas partes dentro da floresta, nem sempre eu os conseguia ver. A um dado momento o telefone tocou. Era um vizinho a informar-nos que vira o nosso gado a uma milha daqui.
    Eu e o Marty, selámos os cavalos e, durante meia hora, cavalgámos pela floresta pública. Um tempo depois, já na estrada de cascalho, encontrámos um outro vizinho de carro que nos informou que vira os nossos animais. Quando os encontrámos, eles já estavam perto de casa. Eles caminharam quase em círculo, cerca de seis milhas, através da floresta espessa. Foi comovente sentir como eles encontraram o nosso lar.

A DESPEDIDA DOS CAVALOS E DO SILÊNCIO


    Chegou a hora de dizer adeus aos gentis cavalos que nos cercavam amistosamente. Fiz amizade com o "Night". Ele seguiu-me e pediu carícias. Kathy explicou:

    — Ele nasceu no nosso rancho, há oito anos. O seu pai é o cavalo preto e branco Mescalero e a sua mãe é a égua preta, Dakota. Temos um livro, enviado pela própria autora, Lucia St. Clair Robson, que fala sobre os índios Comanche e há um cavalo chamado "Night".
O livro tem o nome do nosso rancho e está muito bem escrito.

    Entramos no carro. Um último olhar. Kathy, a gentil anfitriã, foi ficando para trás. Imaginei-a a cuidar da sua família com a paz e o amor que a ampla paisagem, que entrava pelas janelas da casa, lhe oferecia.
    Talvez na magnífica varanda, lendo um livro ou simplesmente descansando, ou ainda, cavalgando livre pelos prados e florestas.
    Eu fui entrando numa outra sociedade, barulhenta e surda, prometendo a mim mesma que voltaria e levaria comigo a revista Ponto & Vírgula, que faria parte da biblioteca do rancho, onde a escrita em língua portuguesa esperaria por outros hóspedes que gostassem e soubessem ler em português.
    Para além do fantástico silêncio, podíamos caminhar, cavalgar, nadar ou andar de barco pelos lagos, apreciando toda a vida selvagem.
    Afinal, para além de toda a beleza natural do lugar, é a ligação humana e acolhedora que nos faz querer voltar e voltar...

Ada Abaé