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A mostrar mensagens de outubro, 2025

Sem punição

Queremos possuir tudo; possuir o desconhecido bem vestido que passa, para possuirmos a vida dele. Possuir a bela mulher modelo, para possuirmos as suas linhas perfeitas. Corremos à pressa às lojas, para comprarmos e possuir o shampoo ou o creme, que como milagre, em poucos dias, nos transformarão iguais a quem foi pago para nos induzir a possuir. Queremos possuir as lojas de roupa, para as trazer para casa. É necessário possuir para nos sentirmos importantes, e acabamos envergonhados do que temos. Por vergonha, continuamos a correr em busca da posse, e acabamos por aprender a roubar sem o perigo de sermos presos; não existe prisão para quem rouba a identidade do pai, da mãe, do irmão... A modéstia é um suplício, a nossa alegria é poder dizer que somos filhos de doutores, nunca de um analfabeto. O nosso irmão é um príncipe, porque o nosso equilíbrio está na inveja que provocamos nos outros. E tudo isso porque aprendemos a dar primazia à aparência janota do boneco que somos. O boneco que...

Maria, tão bela!

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Foi numa tarde quente que sentiu o coração apaixonado e acreditou... De pernas bambas e olhos arregalados, entregou-se, crente de que o amor se abrira como um rio Mãos subtis desordenaram-lhe a pele, e um corcel vigoroso e húmido entranhou-se nela, igual a uma centelha acesa. Ofegante, trincou os lábios enquanto o mel lhe rasgava a selva. Depois da paixão consumada de Maria desonrada mulher imersa na desgraça, ah, Maria, Maria tão bela, perdeu toda a graça! Assim a opinião alheia exclama, indiferente se está a tentar lançar uma pérola à lama. Que estranho encanto sente o homem em provocar, no mais frágil, o pranto. no livro « pássaros em viagem » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Contemplação

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Na imensidade dos anos que voam, tão rapidamente, admiro o sutil encanto de detalhes requintados, penetrantes na vida. Cegos pela busca do êxtase, presos às aparências ideais, banhamos os dias em ilusões decoradas, vazias. Contemplação que nos cansa tão rapidamente, tão rapidamente perde o seu encanto! Passivos diante do esplendor da vida, ansiosos por novas faíscas de emoção, com um poder sedutor, desviamos nosso olhar para caminhos desnecessários, que perpetuam influências desconcertantes e minam a essência da nossa alma. Conduz-nos à inferioridade do ser, torna-nos incapazes de descobrir o atalho para a felicidade, onde desabrocha a mais pura verdade harmoniosa, que nos oferece alegria no momento exato em que a precisamos, mas que rejeitamos por ser simples demais. Antes de contemplarmos as estrelas no céu, deixemos que nossos olhos vejam o que brilha ao nosso lado! no livro « Véus de água » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Sem esquecer

  Como sei o quanto és intensa, e como os mínimos pormenores são importantes para ti, descrevo-te a cena que me envolve.      Dormi mal. Nada de estranho nas minhas noites. Enrolados nas voltas que dei na cama andaram os pensamentos. Antes das cinco da manhã resolvi levantar-me. Levantei-me com um pensamento fixo: preciso de escrever à Carmen.      À primeira vista, como se tivesse que pagar uma dívida. Mas não. Na amizade não existem dívidas.      Existem períodos silenciosos. Silêncios que não matam a amizade. A verdadeira guarda-se, ela própria, num cofre com um código seguro: fidelidade.      Voltando ao momento real que me envolve: bebo um café, imaginando estar frente a frente contigo, com as minhas mãos nas tuas. Conversamos tão naturalmente como se sempre o tivéssemos feito.      Quanto mais avanço na idade, maior é a certeza do que e de quem foi realmente importante para mim, e do que se torna inesq...

Distância, sem ausência

  Minha amiga      Como sempre, hoje pensei em ti.      Mais do que em qualquer outro dia. Depois das quatro da tarde, quando fui para a cozinha, pensei ainda mais. Não sei bem porquê.      Enquanto descascava os inhames e as cenouras para preparar a sopa, imaginei-nos sentadas a saborear o creme quentinho e delicioso. Não nos faltaria assunto.      Na nossa história vivem infinitas horas de diálogos, reflexões e desabafos.       Quando a distância se estendia por dias, era ao telefone que acalmávamos a saudade. À noite, depois dos meus filhos adormecerem, falávamos sem parar.      Quantas caminhadas fizemos juntas, sem nos cansarmos e sem contar os quilómetros, nem reparar na condição das estradas. Lembro-me bem dos teus sorrisos para os meus filhos, ainda tão pequeninos, mesmo quando faziam diabruras.      O curioso é que não consigo lembrar-me do momento exato em que nos...

Efeito

Há um vazio na imitação, na oca existência de seguir as regras à risca, e no submisso gesto de baixar a cabeça à resposta: quando aqui cheguei, o mundo já era assim... Há um riso de triunfo na criança que desmancha o brinquedo oferecido e constrói aquele que se molda aos seus sonhos. no livro « esculpindo » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Mexericos

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  Por que associamos o feminino quando buscamos encontrar os mestres dos mexericos? Quem lança odor sobre um jardim perfumado? Homem ou mulher? — O malformado. Quem se alimenta de sangue alheio? Homem ou mulher? — Quem na língua não tem freio. Não vi apenas mulheres ou homens envolvidos em mexericos, mas seres humanos mexeriqueiros, perdidos em intrigas. O mexerico cria um lamaçal onde se atola quem não o souber evitar. Que árduo trabalho se sujeita o ser humano na ânsia de possuir a vida do outro, esquecendo que, no fundo, todos são contribuintes para o caos das histórias alheias. no livro « esculpindo » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Necessário acordar

  Na descoberta lenta que venho fazendo de mim, encontrei grandes obstáculos ao sonho. Ainda que me chamem de sonhadora, não passo de uma construtora de pesadelos, por pensar que os meus sonhos são impossíveis. Um dia será necessário acordar. Não como acordo todas as manhãs, mas acordar para aprender a sonhar e esmerar-me na arte de os tornar realidade. As portas dos horizontes enferrujaram tanto que, apenas na lucidez do sonho, vive a força para as abrir. no livro « esculpindo » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Fragilidades

Abrigada dos passos circulares do mundo, escondo-me no pequeno círculo da minha casa que construí dentro da casa de todos, tentando amenizar a minha pequenez. O medo tento lançar na pintura da porta; na esperança de acalmar minhas fragilidades. Ainda assim, em noites longas, sinto a presença importuna dos rostos das feras que vigiam, comandando o som de cada pedra das paredes que dormem ao relento. no livro « esculpindo » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Sessenta cêntimos

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  Calcei as botas e vesti o casaco. Estes dois acessórios disfarçavam o confortável, mas velho, fato de treino. Desci à garagem, entrei no carro e, tornando a enfrentar o forte nevão, conduzi rumo ao supermercado. Na hora do pagamento, hesitei entre as duas caixas abertas. Escolhi aquela onde o cliente tinha menos compras. Erro! A senhora trazia uns folhetos que lhe ofereciam um desconto. Insatisfeita com o trabalho da empregada, exigiu que chamasse o gerente. O gerente veio e resolveu o caso: pagou à senhora os sessenta cêntimos que lhe eram devidos. Ela dirigiu um sorriso vencedor à pobre empregada, cujo problema estava à vista de qualquer um: não conseguia ler letras muito pequenas. Por sessenta cêntimos, a senhora criou uma fila onde permaneci por vinte e cinco minutos. Ao chegar à rua, elevei o rosto e recebi os flocos de neve com um sorriso. Após a cena da senhora dos sessenta cêntimos, a mesma paisagem que antes me aborrecia passou a ser um bálsamo. Num mundo cinzento, muita...

Promessas

  Escondidos pelos pinheiros, gravámos juramentos. Aves, soltámo-nos. Aos corpos virgens doámos o primeiro perfume da vida. Descobrimo-nos em mergulhos, aventura que apenas Deus viu quando o seu corpo inexperiente a minha inexperiência possuiu. E eu vi, no canto da sua boca, a vontade louca de devorar o fogo quente do meu ventre, chama ondulante sob a pele, queimando suavemente. Paixão sem rubor, inesquecível sabor de fruta recém-colhida, doce e avassalador. Momentos e promessas de um primeiro amor. Escondidos pelos pinheiros, gravámos juramentos, momento eterno sem arrependimentos. Aves, esculpindo a liberdade… no livro « esculpindo » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Entre Corpo, Alma e Espírito

            Não sei se a maioria sabe para o que nasceu. Eu sei que nasci para escrever, mas ainda assim fiz tantas outras coisas. Deixei-me absorver pelo mundo sem nunca a ele ter pertencido. Hoje, bem mais velha, deitada na cama que eu mesma fiz, escrevo sem saber exatamente sobre o quê. Não posso continuar sem voltar à palavra “velha”, porque velha não me sinto. O corpo reclama um pouco, mas o espírito ignora: ele não conhece a passagem do tempo, não se dobra a ele.      É estranho. Sou dividida e simultaneamente recomposta, como um puzzle feito de identidades diferentes. Isso dá-me uma força singular, uma certeza íntima de que o mundo, aqui, nada pode.      A alma é mais maleável. Ela sabe chorar, conhece a desilusão e fabrica medos. A mente, por sua vez, pode ser traiçoeira: confunde o que serve e o que não serve, cria rotinas e prende-se a vícios. Não distingue quando a rotina traz ordem ou quando nos cega. É o jogo...

Aprendemos, aceitamos e devoramo-nos

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Aprendemos a chamar à resignação de amor ao ódio de paixão. Polimo-nos até sufocar nas aparências, e os senhores poderosos, ainda que mundanos, exigem-nos mansidão e silêncio às nossas questões.   E o mais grave, o mais grave, é que, mesmo em desespero, acabamos todos por viver no reflexo de cada um, como se fôssemos modelos de trapo nas mãos de costureiros que, zombando da nossa feiura, escondem os defeitos dos seus pontos.   Vivemos exilados na máquina infernal do mundo e sorrimos... Sorrimos como patetas que lutam por um futuro que nos prende mais e mais.   Somos mercadoria enviada a leilão, sem nos importarmos com a exata proporção do que somos.   Quase nada é mais importante do que o fulgor do imposto, que nem sempre nos abriga em tempos frágeis, mas que não falta para comprar armas para matar o nosso semelhante; quem sabe, até os próprios filhos.   Mas o mundo esconde muitas guerras. Vivemos em constante rutura com a nossa verdade e inventamos histórias qu...