Queremos possuir tudo;
possuir o desconhecido bem vestido que passa,
para possuirmos a vida dele.
possuir o desconhecido bem vestido que passa,
para possuirmos a vida dele.
Possuir a bela mulher modelo,
para possuirmos as suas linhas perfeitas.
Corremos à pressa às lojas,
para comprarmos e possuir o shampoo ou o creme,
que como milagre, em poucos dias,
nos transformarão iguais a quem foi pago
para nos induzir a possuir.
Queremos possuir as lojas de roupa,
para as trazer para casa.
É necessário possuir para nos sentirmos importantes,
e acabamos envergonhados do que temos.
Por vergonha, continuamos a correr em busca da posse,
e acabamos por aprender a roubar
sem o perigo de sermos presos;
não existe prisão para quem rouba a identidade
do pai, da mãe, do irmão...
A modéstia é um suplício,
a nossa alegria é poder dizer que somos filhos
de doutores, nunca de um analfabeto.
O nosso irmão é um príncipe,
porque o nosso equilíbrio está na inveja
que provocamos nos outros.
E tudo isso porque aprendemos
a dar primazia à aparência janota
do boneco que somos.
O boneco que somos
só pode ser dono de um palácio,
só pode ser descendente de um rei e de uma rainha.
Por isso, mãe, pai, irmão, filho, filha
só aparecem onde eu decidir
e só abrem a boca se eu decidir:
Não venham a ser a minha vergonha.
E devoramos o outro,
sem punição...
Ada Abaé
no livro « esculpindo »»