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O fanfarrão

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       Um jovem professor de inglês, de aparência extrovertida e sorriso constante. Bem vestido, com um ar vaidoso. Alto, magro e um pouco musculado. Daqueles que frequentam um ginásio porque é moda. Um fanfarrão!      — Posso? — perguntou, sorrindo, ao homem que conhecia de vista. Ambos frequentavam o mesmo café e quase sempre à mesma hora.      — Claro! Já que puxaste a cadeira, senta-te à vontade — respondeu Alberto. Rapaz de trinta e dois anos, estatura média e um ar de quem é apenas o que é.      — Estás a beber café simples? Eu quero um café com chocolate. É uma bebida com classe. Aqui entre nós, as mulheres gostam quando me veem a beber café com chocolate — disse Cristiano. Ria. Por vezes, dava a sensação de que o fazia não por vontade própria, mas para mostrar os dentes extremamente brancos.      O outro não respondeu. Tagarela como era, o jovem professor continuou:      — Na empresa d...

Pontes

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            Hoje não necessitei de me refugiar na floresta. Algo emocionante aconteceu fora dela.       À vista de todos, embora nem todos tenham espírito inclinado a olhar e ver. Três representações diplomáticas anunciaram a sua presença num território gelado do norte. Não foi apenas um acontecimento diplomático. Foram humanos a demonstrar que podem viver em paz, independentemente da etnia e da situação geográfica.      Num mundo que frequentemente ergue bandeiras como se fossem muros, esta reunião, numa manhã gelada, demonstrou que é possível estar presente sem dominar, cooperar sem apagar, respeitar sem uniformizar.      Aquela ilha não é apenas um ponto estratégico no mapa, como alguns a querem fazer parecer. É um lugar vivo, com pessoas, cultura e história próprias.      Tocou-me a simplicidade dos presentes. Não houve discursos grandiosos nem promessas exageradas. Esta cerimónia dem...

Talvez excesso

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       Muitos dias sem abrir este caderno. Mas tenho aberto outros.      Depois da publicação de Pássaros em viagem, iniciei a organização e revisão de contos, crónicas e cartas para Entre diferenças. Quando esse trabalho estiver concluído, regressarei a Centúria, que, apesar de muito adiantado, ainda tem um longo caminho a percorrer. Entretanto, nasceu um romance, Fúria. E permanece este diário, ao qual volto sempre que sinto necessidade de ordenar os pensamentos.      Para além da escrita, existe a administração do blogue Ponto & Vírgula, do site Aquífero, do meu blogue pessoal e dos dois canais do YouTube. A tudo isto somam-se as tarefas diárias. Talvez seja essa abundância de projetos que me faz sentir tão confusa. Mas não é a única razão.      Uma enxurrada diária de notícias disputa a nossa atenção. Raramente temos a coragem de desligar. O mundo corre a uma velocidade difícil de acompanhar e nós, talvez por vaida...

A memória da mão

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       Após a compra do caderno, levei alguns dias a abri-lo e a aventurar-me por ele. Durante muitos anos, habituei-me a escrever apenas no computador.      Senti-me um pouco triste ao aperceber-me de que quase já não sabia escrever à mão. A mão movia a caneta sem acompanhar o ritmo do pensamento. Parecia correr pelo caderno, deixando simples riscos apressados. Foi difícil o acerto para que as letras, uma a uma, se desenhassem. A minha caligrafia nunca foi muito bonita, mas passou a ser muito pior. Quase irreconhecível até para mim.      Ainda que frustrada com as primeiras frases, lembrei-me de todo o percurso desde a decisão de comprar o caderno até à compra concreta. E insisti.      Por que hesitei tanto em voltar à escrita manual? Pensava que iria perder muito tempo. No entanto, apercebi-me de quanto isso é benéfico. Enquanto escrevo no caderno, a mão habitua-se ao comando de uma consciência diferente. O cérebro parec...

O regresso ao caderno

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       A hesitação é uma das armas que a nossa mente nos aponta para que adiemos uma ação, uma mudança.      Com quase sessenta e cinco anos, continuo a sentir que são inúmeras as mudanças que desejo fazer. Hoje refiro-me especificamente ao ato de escrever à mão, num caderno. Sem internet, longe de qualquer influência das redes sociais que tanto nos distraem.      E porquê? Falta de inspiração, dificuldade de concentração e, consequentemente, procrastinação. Como já referi inúmeras vezes, escrever, para mim, é vida. Por muito ocupados que sejam os meus dias, se não escrevo, sinto-me a boiar num vazio que me magoa. Talvez, para concretizar um objetivo, seja importante não esquecer os passos dados.      Ontem, enquanto tomava o pequeno-almoço, pensei: — É hoje. Hoje vou comprar um caderno e reiniciar a escrita manual. Acabei de comer, lavei a louça, dirigi-me ao closet e escolhi a roupa (sou muito rápida nisso), tomei um duc...

Honoré de Balzac

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              Quando li Balzac pela primeira vez, tinha doze anos.      Nessa época, na minha mente ainda infantil, imaginava Balzac como um super-homem. De grande porte, poderoso, com tronco e braços capazes de abraçar e proteger o mundo.      Os seus grandes romances, na estante da sala da minha avó, assim como a maioria dos livros nela colocados, chamavam-me para conhecer as personagens que por ali habitavam. Sem hora marcada para entrar nem para sair, ali ficava eu, explorando as características de cada uma, deixando-me levar por sentimentos ora tristes, ora alegres; ora de compaixão, ora de revolta. Imaginava o autor a construir cada detalhe dos mundos que absorviam tanto de mim e muito me devolviam.      Talvez pensem que eu era muito nova para tal literatura, mas, assim como qualquer livro que li durante a minha adolescência e juventude, ajudou-me a perpetuar o amor pela leitura e pela escri...

Instante fugaz

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 E porque a hora é cansaço; o passo é pensativo e a estrada é lenta. A natureza num sublime saber dedilha nas cordas do vento secando o suor e acalmando as veias do homem e do animal, que em silêncio e de passo pensativo pela estrada lenta vivem os detalhes do retorno ao lar como quem agarra a vida na hora do descanso... É o instante fugaz entre a labuta cumprida e a que ainda está por cumprir Ada Abaé no livro « e a poesia anda de galho em galho »