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Aprendemos, aceitamos e devoramo-nos

Aprendemos, aceitamos e devoramo-nos

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Aprendemos a chamar à resignação de amor ao ódio de paixão. Polimo-nos até sufocar nas aparências, e os senhores poderosos, ainda que mundanos, exigem-nos mansidão e silêncio às nossas questões.   E o mais grave, o mais grave, é que, mesmo em desespero, acabamos todos por viver no reflexo de cada um, como se fôssemos modelos de trapo nas mãos de costureiros que, zombando da nossa feiura, escondem os defeitos dos seus pontos.   Vivemos exilados na máquina infernal do mundo e sorrimos... Sorrimos como patetas que lutam por um futuro que nos prende mais e mais.   Somos mercadoria enviada a leilão, sem nos importarmos com a exata proporção do que somos.   Quase nada é mais importante do que o fulgor do imposto, que nem sempre nos abriga em tempos frágeis, mas que não falta para comprar armas para matar o nosso semelhante; quem sabe, até os próprios filhos.   Mas o mundo esconde muitas guerras. Vivemos em constante rutura com a nossa verdade e inventamos histórias qu...

Manhã diferente

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                    Às 5h30 da manhã, aqui em Edmonton, Canadá, sem conhecer nenhuma regra de futebol, assisto ao jogo de futebol entre Portugal e Coreia. Mas tenho motivos para tal.      Será que assisto ao jogo porque gosto de futebol? Não tanto assim! Por concordar com algumas irregularidades que contornam este desporto, que movimenta grandes quantias de dinheiro e grandes massas humanas? Não!      Porque a minha vida gira em torno das pessoas que amo. Então, é o apego às pessoas que são a minha vida, que me faz estar aqui neste sofá, tentando ver os golos que marcam (e, neste momento, Portugal já marcou 4 golos e Hugo Almeida acabou de levar um cartão amarelo, não sei se justo ou não; deixo isso para os entendidos em futebol).      O meu interesse é apenas o de informar o meu marido, que saiu de casa para trabalhar precisamente no inicío do jogo, e de ir trocando impressões com o...

Profissionalismo para além da aparência ou idade

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    A um motorista desconhecido 8h da manhã. Vesti o casaco, enrolei o cachecol em volta do pescoço, coloquei a mala no ombro e abri a porta. Ao chegar à rua, inspirei o ar gelado. Realmente gelado. Era o primeiro dia de primavera. Uma primavera preguiçosa; a neve continuava a cair. Tudo era branco, branco, branco. Com os meus olhos limitados ao branco, dirigi-me com cuidado, caminhando sobre o gelo que cobria o chão, até à paragem do autocarro. Pouco depois ele chegou, parou e entrei. Ao entrar, aqueceu-me a alma,  porque o corpo levaria um pouco mais de tempo, um grande sorriso e um entusiasmado: — Bom dia! Como está? — cumprimentou o motorista. Respondi também com um sorriso e um muito obrigado. O afável cumprimento do motorista não foi dirigido apenas a mim, mas a todos os passageiros que iam entrando e saindo. Foi como um raio quente num lugar tão gelado! Esta simpatia faz parte de um profissionalismo que tenho o prazer de encontrar, não apenas nos autocarros, mas no...

Olha, tens que ter paciência!

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Hoje coloco aqui um texto que escrevi em 9 de fevereiro de 2011. Mas quão desatualizado estará ele? * Quando as quadras de Antonio Aleixo se enquadram: Quantas sedas que aí vão, Quantos brancos colarinhos, São pedacinhos de pão Roubados aos pobrezinhos! A ninguém faltava o pão, Se este dever se cumprisse: - Ganharmos em relação Com o que se produzisse.           Gostaria de escrever sempre palavras bonitas, mas a realidade de algumas pessoas inquieta-me demais para poder ficar serena.       Ontem, ao falar com alguém de Portugal, escutei o cansaço, a desilusão, a incerteza e o desespero de um ser humano que sabe que está a ser usado e sente que tem de ficar calado.       Recebia o ordenado mínimo, tinha um dia de folga por semana e fazia horas extras que, apesar de não serem muito bem pagas, sempre ajudavam um pouco. Agora, recebe o ordenado mínimo, faz dois horários por dia porque os seis empregados da empresa foram ...

A Outra Face de Jibacoa

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  Para além da areia branca e das águas cristalinas; a outra face de Jibacoa.      Todos os dias, aproximava-se a mesma menina. Pele e cabelos desbotados pela vida ao ar livre. Quer fosse na areia ou dentro do mar, lá vinha ela, com o olhar vivo e a mesma frase nos lábios:      — Eu não tenho casa — dizia, em espanhol, enquanto estendia a mão. — Me chamo Camila. E tu? — perguntava-me.      No olhar, que deveria ser inocente, vivia alguém precocemente adulto e manipulador. Construído, estava claro, à força pelos próprios familiares. Ao longe, distinguiam-se duas figuras adultas: os pais, rodeados por vários filhos. Incrivelmente quietos e atentos. Como se aguardassem algo, enquanto a menina se lançava, sozinha, às mãos de desconhecidos.      Se ganhasse, não importando o quê, logo corriam os outros, surgindo das dunas. Aos bandos. Muitos olhos. Esgazeados. Ansiosos, mas também astutos. Todos os dias, durante duas s...

RIDE THE WIND RANCH

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       A duzentos e dezoito quilómetros de Edmonton, no centro-oeste de Alberta, Canadá, na confluência dos rios Clearwater e North Saskatchewan e com uma longa história que vem desde o século XVIII, fica situada a pequena cidade Rocky Mountain House.      Ela serve de marco na mudança, não apenas da estrada, mas de toda a paisagem que nos conduz em direção ao Ride the Wind Ranch.      Funciona como um filtro, esvaziando-nos da poluição sonora e de toda a correria do dia a dia, a estrada de gravilha que rompe léguas e léguas da frondosa e extensa floresta. A PRIMEIRA VISITA AO RANCHO E O CAIR DA NOITE Vinte e um quilómetros depois de Rocky Mountain House, surgiu a indicação: "Ride the Wind Ranch". Quanta vida palpitava, protegida por toda aquela extensão de árvores! Do lado esquerdo, os grous-canadianos conviviam em paz com os bois. Do lado direito, dois coelhinhos brincavam livremente. Paramos ao lado da casa. No cimo das curtas e...

Desnecessário

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  Não recuso, nem acuso a tua tristeza. Apenas quero dizer-te: não lhe somes o rancor nem o julgamento. Ou seja, mais um fardo... Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Quem mora aqui?

Já não és aquele que outrora tanto amei, que, como um sol, me tomou de modo ardente; Aquele a quem ainda ontem me entreguei e sensual me arrebatou num beijo quente. Daquele claro amor, depressa te cansaste... Nesse teu olhar seco que tanto espelha a frieza, Num rigoroso descuido, não vês no que me tornaste, que me perdi ao saltar da alegria para a tristeza. Que aposento sombrio é esta noite que não tem fim, onde o segredo não se desvela... é apenas teu. Enquanto lágrimas loucas se riem de mim, eu choro o amor que de mim se perdeu. Estou tão longe de saber quem és agora; sinto que também já não sei quem sou. Parece que fomos os dois embora e que aquele amor nunca aqui morou! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack