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A memória da mão

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       Após a compra do caderno, levei alguns dias a abri-lo e a aventurar-me por ele. Por muitos anos habituei-me a escrever apenas no computador.      Senti-me um pouco triste ao aperceber-me de que quase já não sabia escrever à mão. A mão movia a caneta sem acompanhar o ritmo do pensamento. Parecia correr pelo caderno, deixando simples riscos apressados. Foi difícil o acerto para que as letras, uma a uma, se desenhassem. A minha caligrafia nunca foi muito bonita, mas passou a ser muito pior. Quase irreconhecível até para mim.      Ainda que frustrada com as primeiras frases, lembrei-me de todo o percurso desde a decisão de comprar o caderno até à compra concreta. E insisti.      Por que hesitei tanto em voltar à escrita à mão? Pensava que iria perder muito tempo. No entanto, apercebi-me do quanto isso é benéfico. Enquanto escrevo no caderno, a mão habitua-se ao comando de uma consciência diferente. O cérebro parece func...

O regresso ao caderno

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       Hesitação é uma das armas que a nossa mente nos aponta para que adiemos uma ação, uma mudança.      Com quase sessenta e cinco anos, continuo a sentir que são inúmeras as mudanças que desejo fazer. Hoje refiro-me especificamente ao ato de escrever à mão, num caderno. Sem internet, longe de qualquer influência das redes sociais que tanto nos distraem.      E por quê? Falta de inspiração, dificuldade de concentração e, consequentemente, procrastinação.      Como já referi inúmeras vezes, escrever para mim é vida. Por muito ocupados que sejam os meus dias, se não escrever, sinto-me a boiar num vazio que me machuca.      Talvez, para concretizar um objetivo, seja importante não esquecer os passos dados.      Ontem, enquanto tomava o pequeno-almoço, pensei:      — É hoje. Hoje vou comprar um caderno e reiniciar a escrita manual.      Acabei de comer, lavei a lou...

Honoré de Balzac

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         ✏      Quando li Balzac pela primeira vez, tinha doze anos.      Nessa época, na minha mente ainda infantil, imaginava Balzac como um super-homem. De grande porte, poderoso, com tronco e braços capazes de abraçar e proteger o mundo.      Os seus grandes romances, na estante da sala da minha avó, assim como a maioria dos livros nela colocados, chamavam-me para conhecer as personagens que por ali habitavam. Sem hora marcada para entrar nem para sair, ali ficava eu, explorando as características de cada uma, deixando-me levar por sentimentos ora tristes, ora alegres; ora de compaixão, ora de revolta. Imaginava o autor a construir cada detalhe dos mundos que absorviam tanto de mim e muito me devolviam.      Talvez pensem que eu era muito nova para tal literatura, mas, assim como qualquer livro que li durante a minha adolescência e juventude, ajudou-me a perpetuar o amor pela leitura e pela esc...

Instante fugaz

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 E porque a hora é cansaço; o passo é pensativo e a estrada é lenta. A natureza num sublime saber dedilha nas cordas do vento secando o suor e acalmando as veias do homem e do animal, que em silêncio e de passo pensativo pela estrada lenta vivem os detalhes do retorno ao lar como quem agarra a vida na hora do descanso... É o instante fugaz entre a labuta cumprida e a que ainda está por cumprir Ada Abaé no livro « e a poesia anda de galho em galho »

Manhã diferente

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escrito: segunda-feira, 21 de junho de 2010           Às 5h30 da manhã, aqui em Edmonton, Canadá, sem conhecer nenhuma regra de futebol, assisto ao jogo de futebol entre Portugal e Coreia. Mas tenho motivos para tal.      Será que assisto ao jogo porque gosto de futebol? Não tanto assim! Por concordar com algumas irregularidades que contornam este desporto, que movimenta grandes quantias de dinheiro e grandes massas humanas? Não!      Porque a minha vida gira em torno das pessoas que amo. Então, é o apego às pessoas que são a minha vida, que me faz estar aqui neste sofá, tentando ver os golos que marcam (e, neste momento, Portugal já marcou 4 golos e Hugo Almeida acabou de levar um cartão amarelo, não sei se justo ou não; deixo isso para os entendidos em futebol).      O meu interesse é apenas o de informar o meu marido, que saiu de casa para trabalhar precisamente no inicío do jogo, e de ir trocando impressões c...

Profissionalismo para além da aparência ou idade

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    A um motorista desconhecido 8h da manhã. Vesti o casaco, enrolei o cachecol em volta do pescoço, coloquei a mala no ombro e abri a porta. Ao chegar à rua, inspirei o ar gelado. Realmente gelado. Era o primeiro dia de primavera. Uma primavera preguiçosa; a neve continuava a cair. Tudo era branco, branco, branco. Com os meus olhos limitados ao branco, dirigi-me com cuidado, caminhando sobre o gelo que cobria o chão, até à paragem do autocarro. Pouco depois ele chegou, parou e entrei. Ao entrar, aqueceu-me a alma,  porque o corpo levaria um pouco mais de tempo, um grande sorriso e um entusiasmado: — Bom dia! Como está? — cumprimentou o motorista. Respondi também com um sorriso e um muito obrigado. O afável cumprimento do motorista não foi dirigido apenas a mim, mas a todos os passageiros que iam entrando e saindo. Foi como um raio quente num lugar tão gelado! Esta simpatia faz parte de um profissionalismo que tenho o prazer de encontrar, não apenas nos autocarros, mas no...

Olha, tens que ter paciência!

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Hoje coloco aqui um texto que escrevi em 9 de fevereiro de 2011. Mas quão desatualizado estará ele? * Quando as quadras de Antonio Aleixo se enquadram: Quantas sedas que aí vão, Quantos brancos colarinhos, São pedacinhos de pão Roubados aos pobrezinhos! A ninguém faltava o pão, Se este dever se cumprisse: - Ganharmos em relação Com o que se produzisse.           Gostaria de escrever sempre palavras bonitas, mas a realidade de algumas pessoas inquieta-me demais para poder ficar serena.       Ontem, ao falar com alguém de Portugal, escutei o cansaço, a desilusão, a incerteza e o desespero de um ser humano que sabe que está a ser usado e sente que tem de ficar calado.       Recebia o ordenado mínimo, tinha um dia de folga por semana e fazia horas extras que, apesar de não serem muito bem pagas, sempre ajudavam um pouco. Agora, recebe o ordenado mínimo, faz dois horários por dia porque os seis empregados da empresa foram ...