quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quem mora aqui?

 


Já não és aquele
que outrora tanto amei,
que, como um sol,
me tomou de modo ardente;
Aquele a quem ainda ontem me entreguei
e sensual me arrebatou
num beijo quente.
Daquele claro amor,
depressa te cansaste...

Nesse teu olhar seco
que tanto espelha a frieza,
Num rigoroso descuido,
não vês no que me tornaste,
que me perdi
ao saltar da alegria para a tristeza.

Que aposento sombrio
é esta noite que não tem fim,
onde o segredo
não se desvela...
é apenas teu.

Enquanto lágrimas loucas
se riem de mim,
eu choro o amor
que de mim se perdeu.
Estou tão longe
de saber quem és agora;
sinto que também já não sei
quem sou.
Parece que fomos os dois embora
e que aquele amor
nunca aqui morou!

Ada Abaé

Maria, tão bela!

 

Foi numa tarde quente
que sentiu o coração apaixonado
e acreditou...
De pernas bambas e olhos arregalados,
entregou-se, crente
de que o amor se abrira como um rio.

Mãos subtis
desordenaram-lhe a pele,
e um corcel vigoroso e húmido
entranhou-se nela,
igual a uma centelha acesa.

Ofegante, trincou os lábios
enquanto o mel lhe rasgava a selva.
Depois da paixão consumada
de Maria desonrada
mulher imersa na desgraça,
ah, Maria, Maria tão bela,
perdeu toda a graça!

Assim a opinião alheia exclama,
indiferente
se está a tentar lançar uma pérola à lama.
Que estranho encanto
sente o homem
em provocar, no mais frágil, o pranto.

Ada Abaé

Entreguei-me com prazer

 


Entreguei-me com prazer,
quem me pode acusar?
Entreguei-me
como muitas mulheres na juventude
esquecendo que nos acusam de pecar
os grandes pecadores
deste mundo cego e rude.

Ada Abaé