sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Será que, por amor, todas as ações são legítimas?

 

Carla enviou-me este texto onde faz várias perguntas... e pediu que eu respondesse.

 Deixo aqui o texto dela e a minha opinião. Apenas a minha opinião... 


    « Esta afirmação pode levar a algumas questões. Vejamos:
“Por uma suposta dignidade... somos obrigados a amar em silêncio.”
Será mesmo por uma suposta dignidade?
    Quando não transmitimos o que sentimos por alguém, aprisionando todo o tipo de comentários e, em simultâneo, deixando de ser quem somos, procurando outras formas de lidar com a situação, nomeadamente aceitando apenas um sorriso, um olhar, uma breve palavra, sentiremos vergonha de admitir o que sentimos ou estaremos perante uma sensação de rejeição?
    Somos comodistas, por forma a não aceitar o que o coração diz e a mente rejeita, ou sentimos medo?
    Imaginemos que estamos numa relação e damos conta de que a pessoa de quem gostamos se sente atraída por outra pessoa. Ou o reverso da medalha: aquela situação em que a pessoa de quem gostamos mantém uma relação com alguém.
    Será que, por amor, todas as ações são legítimas?
    Se assim for, os sentimentos sinceros e verdadeiros jamais terão de se envergonhar. Mas não é menos verdade que, por uma suposta dignidade, a maior prova de amor pode ser deixarmos partir quem amamos... E, neste caso, amar em silêncio.

    E você, já amou em silêncio?                      

Carla »

A minha resposta


    Amor e dignidade têm de caminhar juntos. O amor tem de ser digno, senão corre o risco de deixar de ser amor para se transformar em posse, egoísmo ou sofrimento. O que acontece é que, por vezes, amamos a pessoa errada.
    Não acredito naquela história: “Outra pessoa atrai-me, mas é a você que eu amo.” Quando alguém nos diz isso, está a desvalorizar o nosso direito à dignidade, mas mais grave ainda é quando, voluntariamente, nos submetemos a essa situação.
    O amor não pode causar danos a outros. Quando amamos alguém que já ama outra pessoa, acredito que devemos recuar dignamente e deixar que os outros sejam felizes. Para mim, isso também é amar.
    Por vezes, pode ser excitante a troca de olhares, mas um amor não pode viver apenas disso. Se alguém persiste em viver assim, sem tomar uma decisão, poderá estar a alimentar essa situação por vaidade, egoísmo ou simplesmente por medo de escolher.
    Um amor verdadeiro e correspondido procura enfrentar os obstáculos que surgem no caminho. Provavelmente, muitos não concordarão comigo. O mundo parece valorizar mais as emoções do que os sentimentos profundos, mas, mesmo assim, continuo a acreditar que, se alguém souber distinguir o amor da paixão, atribuirá ao primeiro o seu real valor e lutará por ele como uma grandiosa forma de vida.

E o leitor, o que pensa?

Ada Abaé

terça-feira, 20 de novembro de 2012


Obrigada, Rádio Lusitânea CB!

 



    Neste momento são oito da manhã e estou a ouvir a gravação do programa de ontem, transmitido ao vivo pela Rádio Lusitânia CB.

    Sem que eu soubesse, a Carmen Dolores, o Carlos Carvalho, o João Gomes e o Eduardo prepararam-me um momento inesquecível. Como tão poucos conseguem fazer uma grande festa! Há uns quatro anos que sigo esta rádio e, quando a escolhi, estava muito longe de pensar que chegaria a ter com ela uma ligação tão pessoal.

    É fantástico o modo como conseguimos unir-nos, apesar da distância, e falar assim, ao vivo, tão naturalmente como se estivéssemos todos sentados em volta de uma mesa, desfrutando de um café, sem medo de nos mostrarmos como pessoas simples que riem e brincam com coisas que parecem nada.

    Gostei muito dos poemas recitados pela Carmen e pelo Eduardo. Um dos poemas do Eduardo — ninguém viu, mas obrigou as minhas glândulas lacrimais a soltarem uma gotinha a que chamamos lágrima. As palavras perturbaram-me um pouco, levando-me a um passado não muito longínquo e à situação que o inspirou a escrever aqueles versos.

    Ontem foi mais um daqueles dias que me fizeram perceber como, mesmo nos períodos mais difíceis, há sempre espaço para a alegria, para a amizade e para momentos que ficam. Num ano tão difícil como o que passou, estas pessoas maravilhosas ofereceram-me uma memória que guardarei para sempre.

    Eu, que gosto tanto de passar despercebida, falei, falei... como falei! Cheguei a esquecer-me de que não gosto da minha voz gravada. E tudo por culpa desta equipa, que me apanhou numa longa conversa sem eu esperar.

    Ai, ai, Rádio Lusitânia CB!

    Um muito obrigado ao locutor Israel por nos ter acompanhado durante a emissão e ao meu marido por participar nestas pequenas, mas saudáveis loucuras.

Ada Abaé


escrito na terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


Fotos: 
Swan Hills, onde tudo era branco, silencioso e onde ouvi, pela primeira vez, a Rádio Lusitânia. 
O animal que atravessa vagarosamente a estrada: um alce, um dos tantos animais selvagens que fazem parte do parque natural onde se encontra esta calma e pequena cidade.








O periquito

 


    Encontrei-o numa loja. Os seus olhinhos vivos, dançando entre a majestosa plumagem verde e amarela, fixaram os meus. Imploravam por liberdade. Sem hesitar, comprei-o e trouxe-o para casa. Viajou meia hora dentro de uma caixa pequenina. Eu, humana, pretensa sabe-tudo ou dona do que quer que fosse, olhava-o carinhosamente através dos buraquinhos da minúscula caixa. Coitado! Quais aves merecem ser açoitadas pelos limites de uma prisão?
    Em casa, passou da pequena caixa para uma linda gaiola. Lindo! Em cima do balcão da cozinha, entre a cozinha e a sala, aquele adorno maravilhoso! João! Batizei-o de João!
    Como era delicioso acordar, levantar-me, ir até à gaiola e arregalar a alma com aquela criatura tão bela! No entanto, acompanhava-me o mesmo sentimento que, na loja, me levara a comprá-lo. Não o adquirira eu para o salvar da prisão?
    Decidi oferecer-lhe a casa inteira. Tornou-se amigo íntimo de todos os residentes da sua nova morada. Sempre que me via sentada, preparada para escrever, voava até ao meu ombro e fazia dele palco para exibir o seu repertório musical.
    Quando chegou a primavera, demonstrou fascínio pelas janelas. Mentira! O que o atraía era o canto dos outros pássaros. Ainda que nos dedicasse grande afeto, maior era o desejo de conhecer o que existia para além das barreiras transparentes. Eu, porque o amava, deixei-o ir. Saltitou um pouco entre as flores do jardim, treinou alguns voos rasteiros e, gradualmente, venceu as alturas. Até se transformar num minúsculo ponto escuro. Durante uns meses, à mesma hora, eu abria-lhe a porta e, após um longo ou curto passeio, ele voltava.
    Recordo a última tarde em que o vi voar. Senti no bater das suas asas uma nova felicidade, como se me explicasse: «Se eu não voar, não sou pássaro.» Não voltou mais. Fiquei um pouco triste, até entender que a liberdade que eu lhe oferecia não era a que ele desejava. Como ave, herdara a felicidade e, aproveitando a oportunidade, buscou o seu caminho.
    O que julgamos ser a melhor solução para alguém nem sempre é o que ele realmente precisa.

Ada Abaé

 17 de junho de 2013