Vivo dentro de um corpo
há mais de meio século.
Ele é a minha casa, o meu lar.
Como é possível viver dentro de uma casa
sem dela sair nem um só instante
e não conhecer
cada recanto seu?
Na confusão que me tornei,
tornei-me confusa
para o meu corpo.
Corpo!
Escrevo e penso nesta palavra
como se fosse algo simples,
ignorando voluntariamente
entender todo o mecanismo a que ele recorre
apenas para que eu possa dar
um pequeno passo.
Enquanto me sujeitar a represa
alimentada por rios contaminados,
serei represa presa,
impedindo qualquer nascente limpa
de entrar e expulsar
as águas tóxicas.
Ada Abaé
escrito- 1 de maio de 2026