sábado, 29 de agosto de 2026

Secretamente




Secretamente passa ao teu lado,
como o meu coração bate por ti,
secretamente tenho calado
muito do que sinto e sempre senti.

E o beijo que pensas que não te dou,
dei-to enquanto dormias e eu te olhava
e as palavras que a minha boca não te falou
sussurraram, enquanto secretamente te amava.

Secretamente? Podes perguntar.
Não sei! Talvez apenas por medo
ou talvez porque seja mais fácil amar
assim, secretamente em segredo.

E quando dizes que precisas de mim, decerto
sentes que é maior o teu amor
mas talvez seja mais forte, por ser secreto
o meu que de tão grande, chega a ser dor!

Ada Abaé

 19 de abril de 2012


O diário de Anne Frank


    Quando li o Diário de Anne Frank pela primeira vez, tinha 13 anos. A mesma idade com que Anne começou a escrever o seu diário.

    Olhando para trás, essa coincidência criou uma ponte imediata entre a minha vida e a dela, tornando a leitura uma das experiências mais significativas da minha adolescência. Através das suas páginas, Anne deixava-me entrar no seu mundo, nas suas dúvidas, inquietações e na sua ânsia por afirmar a própria individualidade. Contudo, enquanto eu descobria a adolescência com a liberdade de caminhar na rua, ir à escola e rir em voz alta com os amigos, Anne vivia a sua num espaço exíguo e sob o medo constante de ser descoberta.

    Essa revelação gerou em mim uma profunda empatia, mas também um grande sobressalto. Saber que uma miúda da minha idade vivia aquela realidade enquanto eu tinha a oportunidade de crescer em liberdade fez-me olhar para a História e para a minha própria liberdade com uma seriedade que nunca mais esqueci.

    O Diário de Anne Frank é uma leitura profundamente marcante, daquelas que nos acompanham muito depois de fecharmos a última página. Não é apenas um documento histórico sobre um dos períodos mais sombrios da humanidade; é o testemunho íntimo de uma jovem que estava a descobrir o mundo, a sua própria identidade e a complexidade das emoções humanas, tudo isso enquanto vivia escondida e aterrorizada.

    O que mais me impressionou ao ler as palavras de Anne foi a dualidade da sua experiência. Por um lado, há o peso sufocante da realidade: o silêncio obrigatório durante o dia, o medo constante de serem descobertos, a escassez de comida e a tensão acumulada entre pessoas confinadas num espaço minúsculo (o Anexo Secreto). É impossível não sentir uma sensação de claustrofobia e angústia ao perceber a vulnerabilidade daquela família.

    Por outro lado, o que torna o diário tão extraordinário é a vivacidade da própria Anne. Ela não se reduz à condição de vítima; é uma adolescente cheia de sonhos, opiniões fortes, inseguranças, rebeldia e um talento literário impressionante para a idade. Os seus desabafos sobre a relação difícil com a mãe, os primeiros sentimentos românticos por Peter e a sua ânsia por liberdade mostram uma humanidade vibrante que contrasta violentamente com a frieza e a crueldade do Holocausto lá fora.

    Ler o diário sabendo o destino trágico que a aguardava no campo de concentração de Bergen-Belsen deixa um nó na garganta. Fica aquela dor silenciosa de pensar em tudo o que ela poderia ter vivido, escrito e tornado realidade se a guerra tivesse terminado um pouco mais cedo.
  É, ao mesmo tempo, um tributo doloroso à perda de vidas inocentes e um lembrete urgente sobre a importância da empatia, da tolerância e da vigilância contra o ódio.

Ada Abaé

Escrito na segunda-feira, 27 de agosto de 2012.


sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Será que, por amor, todas as ações são legítimas?

 

Carla enviou-me este texto onde faz várias perguntas... e pediu que eu respondesse.

 Deixo aqui o texto dela e a minha opinião. Apenas a minha opinião... 


    « Esta afirmação pode levar a algumas questões. Vejamos:
“Por uma suposta dignidade... somos obrigados a amar em silêncio.”
Será mesmo por uma suposta dignidade?
    Quando não transmitimos o que sentimos por alguém, aprisionando todo o tipo de comentários e, em simultâneo, deixando de ser quem somos, procurando outras formas de lidar com a situação, nomeadamente aceitando apenas um sorriso, um olhar, uma breve palavra, sentiremos vergonha de admitir o que sentimos ou estaremos perante uma sensação de rejeição?
    Somos comodistas, por forma a não aceitar o que o coração diz e a mente rejeita, ou sentimos medo?
    Imaginemos que estamos numa relação e damos conta de que a pessoa de quem gostamos se sente atraída por outra pessoa. Ou o reverso da medalha: aquela situação em que a pessoa de quem gostamos mantém uma relação com alguém.
    Será que, por amor, todas as ações são legítimas?
    Se assim for, os sentimentos sinceros e verdadeiros jamais terão de se envergonhar. Mas não é menos verdade que, por uma suposta dignidade, a maior prova de amor pode ser deixarmos partir quem amamos... E, neste caso, amar em silêncio.

    E você, já amou em silêncio?                      

Carla »

A minha resposta


    Amor e dignidade têm de caminhar juntos. O amor tem de ser digno, senão corre o risco de deixar de ser amor para se transformar em posse, egoísmo ou sofrimento. O que acontece é que, por vezes, amamos a pessoa errada.
    Não acredito naquela história: “Outra pessoa atrai-me, mas é a você que eu amo.” Quando alguém nos diz isso, está a desvalorizar o nosso direito à dignidade, mas mais grave ainda é quando, voluntariamente, nos submetemos a essa situação.
    O amor não pode causar danos a outros. Quando amamos alguém que já ama outra pessoa, acredito que devemos recuar dignamente e deixar que os outros sejam felizes. Para mim, isso também é amar.
    Por vezes, pode ser excitante a troca de olhares, mas um amor não pode viver apenas disso. Se alguém persiste em viver assim, sem tomar uma decisão, poderá estar a alimentar essa situação por vaidade, egoísmo ou simplesmente por medo de escolher.
    Um amor verdadeiro e correspondido procura enfrentar os obstáculos que surgem no caminho. Provavelmente, muitos não concordarão comigo. O mundo parece valorizar mais as emoções do que os sentimentos profundos, mas, mesmo assim, continuo a acreditar que, se alguém souber distinguir o amor da paixão, atribuirá ao primeiro o seu real valor e lutará por ele como uma grandiosa forma de vida.

E o leitor, o que pensa?

Ada Abaé

terça-feira, 20 de novembro de 2012