Olha, tens que ter paciência!

Hoje coloco aqui um texto que escrevi em 9 de fevereiro de 2011.
Mas quão desatualizado estará ele?

* Quando as quadras de Antonio Aleixo se enquadram:


Quantas sedas que aí vão,
Quantos brancos colarinhos,
São pedacinhos de pão
Roubados aos pobrezinhos!

A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
- Ganharmos em relação
Com o que se produzisse.

    
    Gostaria de escrever sempre palavras bonitas, mas a realidade de algumas pessoas inquieta-me demais para poder ficar serena. 
    Ontem, ao falar com alguém de Portugal, escutei o cansaço, a desilusão, a incerteza e o desespero de um ser humano que sabe que está a ser usado e sente que tem de ficar calado. 
    Recebia o ordenado mínimo, tinha um dia de folga por semana e fazia horas extras que, apesar de não serem muito bem pagas, sempre ajudavam um pouco. Agora, recebe o ordenado mínimo, faz dois horários por dia porque os seis empregados da empresa foram reduzidos a dois, tem meio dia de folga e as horas extras deixaram de ser horas extras.
    Resultado: passou a ser dois empregados e a receber menos do que quando cumpria a tarefa de um. No desespero de ficar sem emprego, reconhece que tem de aceitar.
    Eu pergunto: onde fica a dignidade humana? O trabalho é muito importante, mas quanto tempo aguenta alguém viver apenas de trabalho? Sem tempo para conversar, ver a família ou um amigo, para sentar um pouco e pensar: "Hoje posso descansar...". 
    Quanto tempo aguenta um homem viver como se fosse uma máquina, ignorando os alertas de socorro de todo o seu corpo? Para não falar da alma...
    Nestes momentos, eu sinto-me tão insignificante e, ao mesmo tempo, tão ridícula quando, sem saber o que dizer, acabo por usar a expressão corriqueira e tão sem sentido: 
    — Olha, tens que ter  paciência! 





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