quarta-feira, 29 de abril de 2026

Quem mora aqui?

 


Já não és aquele
que outrora tanto amei,
que, como um sol,
me tomou de modo ardente;
Aquele a quem ainda ontem me entreguei
e sensual me arrebatou
num beijo quente.
Daquele claro amor,
depressa te cansaste...

Nesse teu olhar seco
que tanto espelha a frieza,
Num rigoroso descuido,
não vês no que me tornaste,
que me perdi
ao saltar da alegria para a tristeza.

Que aposento sombrio
é esta noite que não tem fim,
onde o segredo
não se desvela...
é apenas teu.

Enquanto lágrimas loucas
se riem de mim,
eu choro o amor
que de mim se perdeu.
Estou tão longe
de saber quem és agora;
sinto que também já não sei
quem sou.
Parece que fomos os dois embora
e que aquele amor
nunca aqui morou!

Ada Abaé

Maria, tão bela!

 

Foi numa tarde quente
que sentiu o coração apaixonado
e acreditou...
De pernas bambas e olhos arregalados,
entregou-se, crente
de que o amor se abrira como um rio.

Mãos subtis
desordenaram-lhe a pele,
e um corcel vigoroso e húmido
entranhou-se nela,
igual a uma centelha acesa.

Ofegante, trincou os lábios
enquanto o mel lhe rasgava a selva.
Depois da paixão consumada
de Maria desonrada
mulher imersa na desgraça,
ah, Maria, Maria tão bela,
perdeu toda a graça!

Assim a opinião alheia exclama,
indiferente
se está a tentar lançar uma pérola à lama.
Que estranho encanto
sente o homem
em provocar, no mais frágil, o pranto.

Ada Abaé

Entreguei-me com prazer

 


Entreguei-me com prazer,
quem me pode acusar?
Entreguei-me
como muitas mulheres na juventude
esquecendo que nos acusam de pecar
os grandes pecadores
deste mundo cego e rude.

Ada Abaé

Maria

 

Este livro é de Maria
que ama a luz, ama a vida,
ama o afeto, ama o abraço,
ama o sol, ama o luar
a mesma que nem sempre se acha,
de tão perdida nos desafetos
que a impedem de se encontrar.

Na dificuldade em descobrir
amanheceres serenos
num mundo tantas vezes rude,
ela acorda, lavra rochas
e derrama a própria seiva
em terrenos pouco amenos,
no anseio de encontrar na vida,
a plenitude.
Repetidamente, silenciosa, perde-se
na tentativa de entender
o que à sua volta acontece.

São muitas as vezes
em que lhe dão outro nome...
São tantos os que julgam conhecê-la,
e nem uma só vez
chegaram a vê-la.
Quantas palavras absurdas
lhe tentam o futuro construir
e ela na dureza do enredo humano
tenta cinzelar as asas.

Que loucura,
a falta de altura
que lhe dão!
Enquanto para gerar vida
não se inventar outra forma:
toda a natureza humana
está sujeita ao ventre da mulher.
É, por enquanto, norma.

Ada Abaé

Allmas desidratadas

 


Já não te peço que me escutes.
Tenho de me restringir
a esta irremediável passividade,
fingir que não entendo
a tua excessiva impaciência.
Quando aumentas o volume da tua voz,
já sei,
estás ávido por silêncio.

De mim apodera-se uma dor
que me corrói a garganta.
O que tu não sabes é que
já nem à recordação
dos dias contentes que tivemos
eu recorro.

Fechei essa janela...
Não existe mais razão
para continuar aberta.
Somos almas desidratadas
pelo abuso dos hábitos.

A nossa linguagem foi-se transformando
e fizemo-nos estranhos
aos abraços que mantinham
a doçura da partilha.
Sabes, mesmo assim,
numa última tentativa,
eu queria dizer-te:

Lá fora canta um passarinho...
Mas calei-me
ao perceber
que perderas aquele ar de rapazinho
que a rir,
ia atrás de mim até à janela
e, abraçados,
caíamos naquela poesia mágica
estendida pelo nosso horizonte.
Perdemos as asas de fogo
e desabamos no deserto...

Ada Abaé


Poderoso gigante

 


Dentro de mim há um gigante,
tão grande
e ninguém o vê!
Por vezes esconde-se,
por vezes cresce, cresce...

Tantas são as vezes que se ergue
e arrebata a angústia, destruindo-a
num gesto tão poderoso quanto ele.

Com a sua mão enorme, esmaga
infinitos pesadelos.
Só pode mesmo ser um gigante
este poderoso poder
de vencer
as poderosas pedras,
as desmedidas barreiras
que surgem das avalanches
traiçoeiras e inesperadas
da vida!

E quando eu penso
que o meu escudo protetor
submergiu comigo,
emerge nesta forma de gigante
que ninguém vê,
nem, por vezes, eu,
mas que nunca deixou de estar...
dentro de mim!

Ada Abaé

A tarde vai a meio

 


A tarde vai a meio
e chove, meu amor.
As árvores e as flores
deixam-se regar
pelas gotas doces
que caem do céu.

É como quando eu e tu
passeamos pelos caminhos
onde um oculto esplendor
brilha num olhar
que é apenas meu e teu.

A tarde vai a meio
e chove, meu amor.

Tudo fala de tranquilidade,
onde o amanhã
será apenas o amanhã,
e o hoje
a certeza de que, ontem,
um sorriso, alheio à dor,
se entrelaçou
na tua e na minha mão,
falando serenamente de amor!

Ada Abaé


Lutas invisíveis

 

    A casa parecia cheirar apenas a água a ferver. 
Tem cheiro, a água quando ferve? Neste caso, sim. As bolhas libertavam o cheiro da pressa. Saltavam, ansiosas por transformar as batatas em puré. Entre os meus dedos da mão esquerda, um pobre tubérculo gemia, enquanto a direita manejava a faca e o atingia com duros cortes. 

    A poesia... ah! A poesia ficara à minha espera. "Que espere por melhores horas" — pensei. Naquele momento, a poesia era outra; a dos tachos, à luta com o meu cansaço. Mais um pouco, o derrotado tubérculo seria um vaidoso puré de batata nos pratos, que já esperavam na mesa.

    Os convidados estavam ausentes. Encontravam-se na sala ao lado, mas ausentes. Eles não demonstravam nem um pingo de curiosidade. Se assim fosse, teriam movido a cabeça, enquanto eu desabafava o meu cansaço, batendo com mais força do que o necessário com a colher de pau nos ombros do tacho que suava a bom suar. E o pobre pano da cozinha? Convertido a rodilha, experimentou a força de uma mulher aborrecida. 

    Sempre gostei de cozinhar, mas nem sempre nos momentos em que os outros me querem na cozinha. A poesia esbracejava noutro universo, impaciente que eu lhe desse autorização de se manifestar. "Que coisa! A poesia também precisa ser paciente! Não?" Ela segredou-me que não. Desabafou: "A espera aniquila-me".

    Agora comam que eu vou escrever — senti vontade de dizer. Contive-me, sentei-me na mesa. 

    A poesia brincou de rio dentro do meu copo, de água e de jardim na jarra de flores. Nem me deixava mastigar. Nunca ansiei tanto que todos terminassem de comer. 

    "Ah, mas depois de todos satisfeitos, quem arruma os pratos sujos?" — pensei, levantando-me. 

    Os pratos tremiam de medo nas minhas mãos. Elas quase os afundavam no pobre caixote do lixo, que por pouco não se engasgava, tal era a velocidade e a fúria com que o forçavam a engolir os restos deixados pelos convidados.  A poesia, essa coitada, já desaparecera. Ocupara o seu lugar, a desilusão, por eu mesma ter-lhe feito o funeral.

    Quatro horas a remexer-me na cama, a tentar chamar o sono, em vão. Ele decidira ficar de folga, desistira de mim. Inquietava-me a imagem da poesia a remexer-se no túmulo.

    Levantei-me e, com todas as minhas forças, busquei a pá decidida a desenterrá-la. Não havia outro caminho. Quando a libertei, derramou-se em queixumes. Que poema triste ela escreveu! Mas, depois de terminado, senti-me renovada! Que doce refrigério na minha alma, poder desabafar num poema o que gostaria que os outros entendessem sem que eu falasse.

  O mundo familiar está cheio de botões secretos. Alguns nunca chegam a ser acionados. O amor enferruja constantemente na fechadura da porta. Por vezes, espreita, quase pergunta se pode entrar, mas depois, encolhe-se; lá dentro, o dever ocupa toda a casa. Uns esperam sentados, iguais a convidados que não conhecem os cantos da casa, que alguém cumpra o dever e esse alguém transpira, convencido de que tem de dançar a valsa dos outros e de suportar o mundo no seu dorso.

Ada Abaé

Vestígios

 

Sinto na tua camisa lavada,
neste tecido que abraço
a tua pele marcada,
do teu corpo que adormeceu
vencido pelo cansaço,
descansando sobre o meu.

Lanço o olhar àquela hora
em que o teu respirar se perdeu
no meu peito que agora
respira triste sem o teu.

E sobre este tecido que aperto
cai uma lágrima cansada
como um grito que cai certo
na tua camisa lavada!

Ada Abaé

Aqui

 

Despeço-me lentamente da noite que se vai;
sinto o dia ainda como sombra encantada,
e ouço a chuva que mansamente cai,
acordando, inconsciente, a casta madrugada.

Entre a noite e o dia, a incerteza me enlaça,
hora nua, insensível e de rudes melodias,
saqueia da minha boca a tal graça
que apagaria, da minha alma,
as rugas fundas e frias.

Talvez eu sorrisse contente
após esta noite sempre acordada,
se visse o sol nascer no poente
e o sentisse, como eu, estrela desorientada.

Ada Abaé


Lágrimas

 


Gotinhas húmidas e transparentes
queimam o meu rosto cansado!
Mas não são lume!
São lágrimas fortes e quentes,
são um grito silenciado
num silencioso queixume.

São um livro fechado
tão quase depois de o abrir,
são o poema inacabado
que a meio quis partir.

E nessa lágrima transparente,
nesse silencioso queixume,
morreu o sorriso inocente
numa gotinha quente
que queima sem ser lume!

Ada Abaé

O corvo e a tempestade

 


A noite ficou escura e o vento sopra torvo,
a chuva bate tão solitária na janela,
talvez fuja do agouro do corvo
que bate as negras asas atrás dela.

Por que chove assim, canta o corvo e sopra o vento,
se nem sequer é dezembro, mas sim agosto?!
Espreito pela vidraça e vejo o vento violento
a fazer girar o corvo que brinca bem-disposto.

Murmurei, lenta, alguns ais,
sem entender a negrura dos espaços celestiais,
para, de seguida, sorrir enternecida ao perceber

que, enquanto eu fiquei desorientada, aborrecida
por uma tempestade que chegou perdida,
o corvo abriu as asas, quis brincar... quis viver!

Ada Abaé

Gloriosa jornada

 

Um verso de amor
no bico da ave,
que em pequenas porções
oferece a força
à pequena cria,
que recebe a dádiva
com alegria.

É uma gloriosa jornada:
do bico da mãe
ao bico da cria.

Felizes das aves
cuja grandeza abrange
a veracidade do verbo viver,
pois ainda sabem
que toda criatura que vive
tem direito a alimento.

E o amor mistura-se,
bico abaixo:
completo sustento.

Ada Abaé

Papillon

 

Nariz longo e afilado entre os olhos tristes e derrotados. Ossudas maçãs do rosto reprimindo questões esgotadas. O medo serpenteando-lhe o cérebro. Entre a chávena do café e os cotovelos, um papel branco. A mão esquerda segurando o queixo, enquanto a direita entorpecida pela rotina do trabalho fabril, desenhava um cavalo.
    Subitamente, viu o seu colo magro invadido por um cão de pequeno porte. Apesar do seu isolamento na esplanada barulhenta deixou que todo aquele pelo branco se acomodasse nas suas pernas. O cão colocando uma das patas sobre o papel, saudou:
    — Olá, fantástico homem.
    — Fantástico sonhador! O mais importante que faço na vida é olhar garrafas correndo numa passadeira. Sou um ridículo.
    — Se tu te achas um ridículo, ridículo serás. Um cavalo?
    — Rocinante? Talvez como Dom Quixote, conquiste a Dulcineia que almejo; ela quer-me herói. Queria tanto dançar com ela, mas ela diz que fico melhor a um canto. Nem dançar sei!
    — Estás grávido.
    — Quê?
    — De medo. Não te preocupes; é possível o aborto. Estou aqui eu.
    — Um minúsculo Papillon com orelhas de borboleta.
    — Cheio de vontade. Serve-te do que tens.
Francisco riu trocista. Papillon arreliado saltou para o chão, revirou os olhos, arreganhou os dentes e lançou-se ferozmente a um dos seus pés. Francisco assustado levantou-se e recuou.
    — Não recues homem, reage — rosnou o cão, atacando-lhe alternadamente cada um dos pés. Francisco aprendia a dançar. Adeus, vergonha; era urgente salvar os pés.
    Um acordeão aumentou a diversão. Viu, entre os espectadores, uma outra Dulcineia dançando.     Aceitava-o sem disfarces. Sorriu; os medos eram moinhos de vento.
    Papillon? Aplaudia dentro de si! 

Ada Abaé


Pintura

 

Deixei-me apaixonada, descansar...
como o rosto pintado numa tela, belo instante;
sobre o teu colo disposta a amar
Escrava dos teus dedos... delirante!

Sou como o pano pronto a colorir, vaporoso...
Que se estende e submete à pintura,
onde tu hábil pintor, virtuoso,
juntas os nossos corpos... aquarela pura!

E depois dos nossos instintos cansados,
descansas os dedos, iguais a pincéis suados...
E eu plácida, no teu peito, descontraída...

Que pintura real! Que plenitude! Que beleza!
Que deixa num quadro a virtude, a certeza
de que o amor é o plasma da vida!

Ada Abaé

Apenas o que é necessário

 

Quero olhar nos teus olhos
e, com um gesto de mão,
nos nossos lábios calar
explicações e desculpas
que bloqueiam
o que, naturalmente,
deve existir...

E aprenderemos, juntos,
a viver apenas
o que é necessário.

Ada Abaé

Viagem mágica

 


O sol parecia um girassol que, cansado
de viver na terra, fugira para o céu,
as nuvens pareciam bordadas de dourado
pelo sol que parecia um girassol.

O burrinho, atento ao caminho,
subia o trilho de pedra e terra,
balançando as cangalhas devagarinho,
subindo o trilho de pedra até ao cimo da serra.

O meu braço, como um galho meio bambo,
caía das cangalhas que balançavam devagarinho;
sentia o beijo das ervas que, beijadas pelas libelinhas,
ondulavam fazendo vénia ao burrinho.

Pendurando a cabeça, quase fazendo o pino,
via o mundo ao contrário,
até a D. Josefina,
no seu xaile preto dobrado em triângulo,
benzendo-se, dizia:
— Cruz credo, Sr. Francisco, olhe a sua menina!

O burro de orelhas grandes e crina pequena
deitava de soslaio um olhar vivaço,
zurrando para o cão da D. Josefina,
que, na tarde amena,
ladrava ao cordeiro que lhe respondia balindo.
Horas depois, descendo a serra ao teu lado,
de mãos dadas, ouvia-te cantar,
enquanto guiavas o burrinho de lenha carregado

sobre as cangalhas que balançavam devagar.
Na água do rio que corria tão fresquinha,
alimentando os caniços de vestido verde folhudo,
refletia-se a imagem de uma menina
e a de um deus com poder para tudo.

Ada Abaé


A paz


 Às vezes a paz sai apressada da minha vida,
parte e parece não fazer caso do que eu sinto,
ficam as vozes alteradas, a palavra irrefletida
e eu fico no deserto, com o prelúdio da paz extinto.

Que se calem as vozes por um instante,
que renunciem a esse irrisório enredo,
que a fúria seja delírio, inspiração distante,
que a ira se levante tarde e se deite cedo.

As palavras alteram-se, cegas e sem rede,
são braços traiçoeiros que a agitação atrai,
grita aquele, grita este, irado, cheio de sede
de uma razão que enfastiada, também se vai.

Por isso, procuro o meu repouso longe de tanta tolice,
no terno ninho que a paz fez com carinho ardente
e distanciada das sentenças: tu disseste, eu disse,
achego-me a ele, enrosco-me lenta e docemente!

Ada Abaé


Nada

 


Quis dar voz ao silêncio, momento louco,
quis ganhar a vida... ser gente enfim;
não veio a voz... morri um pouco
e, em silêncio, dei de novo por mim.

Tento resistir à vontade de nada ser,
mas não me sinto capaz ou resistente,
pois esta vontade de nada querer
leva-me ao vazio onde nada se sente.

E esta dormência que me atrai,
este acreditar que nada sou,
abraça-me na escuridão e, ai...
reforça a solidão que me encontrou!

Ada Abaé


A dor que me causou, passou.


Àquele a quem cheguei a odiar,
já não odeio.
A dor que me causou, passou.
É-me indiferente, já não o receio.
O medo que outrora me dobrava,
acabou.

As palavras que me dirigia com desprezo
para que dos meus pés
o chão se afastasse
foi abismo ao qual ele próprio
ficou preso,
tal era o desejo dele
que eu não me bastasse.

Após entender tão agressivos areais,
desejo que às suas raivas
as reduza a nada,
que sinta que não lhe servem mais
para que não se voltem a encontrar
na mesma estrada.

Ada Abaé



 

Mais do que arte

 

Mais do que arte,
eu chamaria de sentimento
àquele que amando o mundo,
na vida se concentrou
e na terra pintou um quadro
que torna real este momento,
onde a chuva canta
a canção que o vento lhe ensinou.

A nuvem negra pelo relâmpago aclarada,
balança no ar sem o menor sinal de dor
e vestida da sua natural realeza,
aceita encantada
a forte voz do trovão
que lhe sabe falar de amor.

E cada gota de água é como um beijo na terra,
onde o solo se sente como ventre encantado,
germinando a semente na planície ou na serra,
demorando nos meus olhos
como um beijo demorado.

A quem devo agradecer tamanha beleza
ao poder sentir que na noite
tanta vida se acende,
se a nuvem esconder a lua,
o sol a fará luz acesa
e que a chuva se liberta
ao cair na folha
que a prende.

Ada Abaé


Insónia

 

Como sombra de um sono que não vem,
como estrela de um firmamento já conhecido,
tento sentir o repouso que a noite tem,
mas se a noite vem, o sono parece
ter fugido.

Tropeço nos tentáculos da escuridão
mas ninguém ouve... como podem ouvir?
Esta é a hora longa que acordou a solidão
e quando o ruidoso mundo se calou
para dormir.

Ada Abaé


Guerreia

 

Guerreia no porto
onde se batem as tuas tristezas,
aprende a coragem no rio
que, nas margens, traz
a bravura de um guerreiro
que luta por certezas
e que deseja desaguar na foz,
onde mora a paz!

Resiste ao desespero
de querer desistir;
resiste à guerra das sombras
de vida sombria;
foge de onde te roubam
a liberdade de sorrir;
liberta-te para a luz
que traz a harmonia!

Rasga de ti o medo do mundo
e, na vida, avança;
vive na certeza:
quem quer, sempre alcança,
mesmo que saibas
que o medo, por vezes, voltará...

Deixa que te contagie
o mundo da alegria,
ainda que alguém triste
te diga ser fantasia.

Se compreenderes a vida,
o sol não tardará!

Ada Abaé


Como falar de verdades a alguém?

 

Como falar de verdades a alguém
cheio de rancor, de olhos focados
apenas nos erros cometidos por quem
nem sempre foi autor de atos errados?

Escavar o poço dos defeitos alheios
é viver em constante ressentimento,
é expor a alma aos olhos das sombras
e sujeitar-se ele próprio ao sofrimento.

Livre-se o alvo de o levar a julgamento.
Não é fácil, mas o que fazer?
Jogue tudo na cave do esquecimento
e apague a guerra
que o outro teima em acender.

Ada Abaé


Neve

 

Imaculada neve, leve como uma pena,
absoluta alvura, mil cristais todos juntinhos,
cheia de graça cai nesta tarde serena,
reluzente véu que se estende pelos caminhos.

Neve atrevida adiantando o anoitecer,
vai caindo, beijando esta e aquela face, a sorrir,
expõe-se bela para toda a gente ver
igual a dama que sabe seduzir.

Bailarina que desce girando lentamente,
tecedeira de algodão que encanta
o sol que, por vezes, descontraidamente
se deita sobre a imensa colcha branca.

Ada Abaé


Versos tristes

 

Amo-te como sou!
Por que ser diferente?
Se não te amasse como sou,
não seria eu...
Ama-me sem tentares que seja outra
e sente
que todo o amor que tenho para dar é teu!

Não deixes que morra em pedaços
a longa viagem que fiz até ti... até nós!

Deixa-me
adormecer eternamente nos teus braços;
não me deixes retornar a mim...
não nos deixes sós.
Não me faças sentir cruel e fria!
São como vendavais,
nem sabes quanto,
que me enlaçam em cadeias de agonia:
as palavras dos teus lábios
que te fazem parecer santo.

Serei eu erva daninha
de rebento violento,
ou será um estranho impulso
pelo desejo,
uma estranha luta
entre a razão e o sentimento
quando tão inquieta
te procuro
e não te vejo?

Destino estranho
o desta noite fria,
onde a minha alma
no silêncio se aninha
e se debate em versos
com tão pouca alegria,
ao serem escritos
por uma tristeza...
que é minha!

Ada Abaé


Liberdade

 

Quando os meus sentimentos sentem
a hospitalidade de promessas que secaram,
experimento a aventura de passear
pela arena dos sentidos
e deixo viver os pensamentos
por uns tempos perdidos,
na esperança de que do solo seco
rompam horas verdes e frescas.

Que o cheiro a terra suja
se transforme no aroma do junco,
que ele rompa pelas pedras
e que transforme,
as barreiras desse ciclo fechado,
num rio
onde as gotas de água borbulham
e têm a liberdade de escolher...
a liberdade!

Ada Abaé


Dimensão paradisíaca

 

São liberdade os pássaros do céu
são pátria sua, os seus voos de amor
enchendo as florestas
de cânticos alegres
em reverência ao criador.

São violinos os sons do vento
nas árvores vestidas de folhas
que se fazem jardins no firmamento
Dimensão paradisíaca
onde tudo é certo,
onde o nada é completo

Serei parte desse mundo puro
se não me fizer preguiça
no leito do esquecimento,
pois há portas que se abrem,
que me ascendem a espírito,
entre os jardins dos céus
e os violinos do vento.

Ada Abaé


Ninguém usa

 

Num dos cantos da varanda,
uma mesa de madeira
com quatro cadeiras
esperando alguém.
No outro canto,
uma cadeira de balouço.
Também vazia.

As flores medram ao sol
e os pássaros apresentam-se alegres.
O chão da varanda
acabou de ser lavado
mas ninguém sabe, ninguém veio ver.

A mesa ninguém usa
e as cadeiras
estão sempre arrumadinhas.
Nunca se escuta o estalar de uma cadeira.
Ninguém se senta nelas.

Mas todos devem estar felizes;
do interior da casa não saem ruídos.
... eles lá dentro e eu aqui fora
vendo o gato brincar na relva
e inspirando o aroma
de um chão acabado de lavar....
Há um traço próprio da minha infância
nos variados tons das rosas,
nos malmequeres,
nas folhas aromáticas das sardinheiras.
... e eles, lá dentro,
continuam silenciosos,
acordando as suas emoções
pelas avenidas da Internet...

O chão de uma varanda acabado de lavar
é deslumbrante,
é um atalho sorridente até ao jardim relvado,
onde refresco os pés e concerto a alma.
... e eles, lá dentro,
continuam silenciosos,
acordando as suas emoções
pelas avenidas da Internet...

O Autor do enxerto
deste perfeito momento poético
entre a minha varanda
e o meu humilde jardim,
merece um prémio Nobel.

Ada Abaé


Esse luar atrapalha

 

Esse luar atrapalha, não me serve mais!
Colheu-me como quem colhe,
distraído, uma flor
esquecendo que sou igual às flores reais
que após colhida perde todo o esplendor.

Com um certo comodismo deixei-me ficar,
esqueci o jardim, onde a luz era alimento,
deixei a raiz longe da fonte, a secar,
e o caule doente, murmurando sedento:
— Esse luar atrapalha!

Por longo tempo ele escondeu, discreto,
que nem todos os luares são afetos.

Quero voltar ao útero materno
e dentro de mim
reaprender a fidelidade da ave ao voo,
e voar,
renovar a raiz, curar o caule, ser jardim,
sem ao velho retornar, pois, ah — esse luar,
esse luar atrapalha!

Ada Abaé


Atritos

 

De pé
sobre o meu pé
fico sem pé
extasiada com o belo lençol
da noite
tão bem bordado de silêncio

Silêncio...
Silêncio, até que o próprio silêncio
acorda os meus dias,
os meus entardeceres,
as minhas noites
e as minhas madrugadas...

Instala-se a enorme guerra
entre os secretos conflitos.

Ada Abaé

Aquilo que o artista esqueceu

 

A trovoada,
a chuva
e o sol,
que, apesar de tudo,
ainda espreita,
são uma obra de arte
esculpida e exposta
nas linhas do artista;

mas ele esqueceu
da tua brisa fresca
na minha pele.
A cortina esvoaça leve pelo quarto
e fala do vento.

A tarde cai tranquila,
e eu,
quer feche os olhos
ou olhe o tempo,
crio, de modo simples, mas intenso,
aquilo que o artista esqueceu:

A tua brisa fresca
que me aquece,
trecho lúcido
deste amor imenso!

Ada Abaé


Nunca pela metade

 

Se a hora assombra
saio da sombra;
a vida é demasiado querida
para a viver perdida
de intimidade
com quem gosta de viver pela metade.

Na vida a que me dou
sou aquilo que sou;
amo a doce sensação,
esta de voar
ao tocar
com os pés descalços no chão.

Tão bom poder eu
nesta doce sensação
sentir que o chão
também é meu.

Que terna unicidade,
alcançar a eternidade
na simples ação
de uns pés descalços no chão...
Viver por inteiro
nesta simplicidade,
da terra sentir o cheiro,
por inteiro,
nunca pela metade.

A vida é demasiado querida
para a viver perdida,
de intimidade
com quem gosta de viver pela metade.

Se a hora assombra
saio da sombra.

Ada Abaé


Eis tu


 Eis tu, vestida de um universo
que tento alcançar
com o longo braço da imaginação.

É longa e alta a escada
que permite a entrada no mundo
de onde vieste
e que guarda tantos segredos.

Tenho amor a sobrar
para chegar ao teu reino
que adivinho pleno de ruas
pavimentadas de vida.

Ada Abaé

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Aura noturna

Concentro os sentidos
na caída da noite,
que calmamente sopra o sol,
apagando-o devagarinho,
como quem sopra delicadamente
a chama de uma vela.
O meu gato estende o corpo
sobre o tapete,
e um piano ressuscita
os melhores clássicos:
Mozart, Beethoven, Chopin...
O gato dorme
e eu escrevo, divago...
Encaminho o olhar
para o afável movimento das árvores,
onde o vento
poeticamente as vai amando...
Rumo à Terra,
o néctar da poesia,
numa aura noturna,
orna as janelas de cada lar,
num ato puro e silencioso
que carrega em si
um poema de amor
para um mundo que precisa
de aprender benevolência e perdão.

Ada Abaé

terça-feira, 14 de abril de 2026

Noite em mim

 

A noite que vive séculos, vive sem pressa
e trespassa-me a alma, calma e altiva;
algema a vida numa paisagem que atravessa,
esta hora de cinzas, outrora tão viva.

Parece estreito o espaço por onde se estende;
por isso, ela passeia, estendendo-se até mim,
exibe-me a sua cauda e não entende
que pode ser noite antes do dia chegar ao fim.

Manuseia-me a alma sem ainda entender
que os lírios brancos podem amarelar,
que as rosas no verão podem morrer
e que uma estrela pode deixar de brilhar.

Ada Abaé


Choremos juntas


Também choro
porque não posso abraçar-te
neste teu momento de dor.

Choremos, amiga,
ainda que os corpos separados,
as almas juntas.

Para que um dia,
no reencontro,
nada nos separe.

Nem a dor,
nem as lágrimas,
nem as vozes confusas ao nosso redor,
cada uma opinando
segundo o que pensa.

Indiferentes
ao que sentimos,
ao que somos.

Chorar é não desistir.

Choremos juntas
para que um dia,
felizes,
de mãos dadas,
prados floridos e iluminados
se estendam
como promessa cumprida.

Ada Abaé


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Consciência

 Quem vive anestesiado?
Quantos diferentes ópios existem?
Quantos homens se dizem puros e justos,
enquanto desconhecem
a verdadeira pureza e justiça?

Quantos fecham os olhos aos próprios abismos,
e quantos ousam encarar o que é invisível,
o que arde silencioso dentro de cada um?

Quem desperta, sente o peso da verdade —
e a leveza de finalmente conhecer-se.

Para o encontro do homem com o homem,
não é necessário barulho,
apenas concentração no que realmente importa.

Ada Abaé

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

José João

 

    José João — uma das vítimas da Guerra do Ultramar, ocorrida durante a ditadura salazarista.
    Ano 1969 — Portugal.
    D. Maria guardava o lenço branco, aquele com que acenara no cais enquanto via a figura do seu filho de 21 anos perder-se entre tantos outros filhos de outras mães, no barco que os levaria para longe, muito longe. Ainda assim, conseguiu dizer adeus ao seu filho. Quantas outras, por falta de meios, não conseguiam vencer a distância entre as suas terras e a cidade, ficando em casa a rezar? Muitas provavelmente nem o mar teriam visto, nem um barco!
    Era fácil encontrar D. Maria: na loja, nas ruas, na fonte e no rio, onde as mulheres lavavam a roupa da semana. Talvez ela procurasse força nos desabafos com os vizinhos.
    — Todos os dias rezo, agarrada a este lenço. Faço dele um terço. Foi com ele que disse adeus ao meu José João. — desabafava ela, envolta no seu luto prematuro, que se refletia nos gestos e no olhar, denunciando a auréola negra que envolvia a sua alma.
    Não se permitia rir, guardando o sorriso para o dia em que pudesse abraçar novamente o seu filho.
    — Como posso eu rir? Eu bem reparei nos queixos do meu José João a tremer para não chorar... — respondia ela, quando alguém a aconselhava a distrair-se um pouco.
    — Sr. Luís, hoje não traz nada para mim?
    — Não, D. Maria — confirmava o carteiro.
    Ela suspirava, não se sabia se de alívio ou de ansiedade.
    Um dia, ela foi lá a casa. Queria que eu lhe lesse a carta que recebera. Envolta no seu xaile, tentando compor o cabelo dentro do lenço, perguntava ansiosa:
    Ano 1969 — Portugal.
    D. Maria guardava o lenço branco, aquele com que acenara no cais enquanto via a figura do seu filho de 21 anos perder-se entre tantos outros filhos de outras mães, no barco que os levaria para longe, muito longe. Ainda assim, conseguiu dizer adeus ao seu filho. Quantas outras, por falta de meios, não conseguiam vencer a distância entre as suas terras e a cidade, ficando em casa a rezar? Muitas provavelmente nem o mar teriam visto, nem um barco!
    Era fácil encontrar D. Maria: na loja, nas ruas, na fonte e no rio, onde as mulheres lavavam a roupa da semana. Talvez ela procurasse força nos desabafos com os vizinhos.
    — Todos os dias rezo, agarrada a este lenço. Faço dele um terço. Foi com ele que disse adeus ao meu José João. — desabafava ela, envolta no seu luto prematuro, que se refletia nos gestos e no olhar, denunciando a auréola negra que envolvia a sua alma.
    Não se permitia rir, guardando o sorriso para o dia em que pudesse abraçar novamente o seu filho.
    — Como posso eu rir? Eu bem reparei nos queixos do meu José João a tremer para não chorar... — respondia ela, quando alguém a aconselhava a distrair-se um pouco.
    — Sr. Luís, hoje não traz nada para mim?
    — Não, D. Maria — confirmava o carteiro.
    Ela suspirava, não se sabia se de alívio ou de ansiedade.
    Um dia, ela foi lá a casa. Queria que eu lhe lesse a carta que recebera. Envolta no seu xaile, tentando compor o cabelo dentro do lenço, perguntava ansiosa:
    Eu, que já sabia ler bem por estar na terceira classe, confirmei com a cabeça.
    — Lê, lê... — pedia ela, nervosa.
    — Calma, vai ver que são boas notícias — dizia minha avó, sentada ao meu lado, tentando acalmar as pernas trêmulas da pobre mulher.
    Carta de José João
    Querida mãe,
    Espero que esta carta a encontre bem de saúde. Eu estou bem, na Graça de Deus. Tenho muitas saudades e conto os dias em que vou poder voltar a abraçar a senhora, minha mãe. Dê um abraço ao senhor Joaquim dos Bois, à D. Belmira da loja e a todos que perguntarem por mim. A Gracinha encontra-se bem? Diga a ela que espere por mim. Continuo a gostar muito dela.
    Um grande abraço para si, deste seu filho que nunca a esquece.
    José João
    Quando levantei os olhos, pude ver o seu rosto coberto de lágrimas.
    — Não chore, mulher. As notícias são boas. Vai ver, saiu daqui um rapazola, vem de lá um homem — exclamou a minha avó, usando a mesma expressão que tantos repetiam, como se isso ajudasse a justificar a ausência dos filhos, transformados em soldados, numa terra longínqua que Salazar teimava em chamar de “vizinha”.
    Dois anos depois, a aldeia ria, cheia de flores, vozes e movimentos agitados. Um grande arco, feito de ramos verdes e flores silvestres, enfeitava a entrada da povoação, decorado com bandeiras coloridas de papel, esperando o retorno de José João.
    De repente, fez-se um silêncio solene. Todos os olhos fixos no interior do “carro de praça”, preto e verde. Lá dentro, o recém-chegado sorria tímido e inseguro.
    — Graças à minha Nossa Senhora, que me entregou o meu filho de volta! — clamou D. Maria aos céus.
    Vimos sair do carro o tio que o fora buscar. O seu ar demasiado sério quebrou a alegria dos habitantes da aldeia. Seguiram em silêncio a volta que o homem deu ao carro, abrindo a porta do lado onde se encontrava o tão esperado José João. Este, colocando uma perna do lado de fora, estendeu o braço para se apoiar no ombro do tio.
    As expressões de espanto foram muitas.
    — Coitado! Que desgraça! E ele, que era a esperança para aquela casa! Coitado do pai acamado há tantos anos e agora o filho, que podia ser o ganha-pão deles, vem sem uma perna.
    Os olhos do filho encontraram-se com o sorriso desajeitado da mãe. Era como se ela lhe dissesse:
    “Deixa lá, o que interessa é que voltaste vivo.”
    E ele lhe respondesse:
    “Pois, nas histórias que me contavas sobre os bichos-papões, eles só me comiam a brincar. Ali, os bichos-papões eram mais fortes e tu nunca chegaste quando eu, escondido na toca, gritava por ti... Agora sei que se pode morrer tanta vez...”
    A Gracinha, já mais adulta, correu para ele e segurou-o pelo braço, garantindo-lhe que ficaria ao seu lado.
    José João estava um pouco atordoado. Por um lado, sentia-se feliz e protegido, mas por outro sentia dentro de si aquele burburinho esquisito, como se fossem vozes malvadas que não o largavam. Mas isso ele precisava guardar segredo. Era proibido falar.
    — Coitado, não voltou muito bem da cabeça. Dizem que grita à noite — espalhavam alguns pela aldeia. Diziam apenas que não voltara bem da cabeça, mas ninguém se atrevia a dizer porquê. 
Era proibido falar.

  — Podes ler esta carta, menina? É do meu José João.


Ada Abaé