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Honoré de Balzac

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        Quando li Balzac pela primeira vez, tinha doze anos.      Nessa época, na minha mente ainda infantil, imaginava Balzac como um super-homem. De grande porte, poderoso, com tronco e braços capazes de abraçar e proteger o mundo.      Os seus grandes romances, na estante da sala da minha avó, assim como a maioria dos livros nela colocados, chamavam-me para conhecer as personagens que por ali habitavam. Sem hora marcada para entrar nem para sair, ali ficava eu, explorando as características de cada uma, deixando-me levar por sentimentos ora tristes, ora alegres; ora de compaixão, ora de revolta. Imaginava o autor a construir cada detalhe dos mundos que absorviam tanto de mim e muito me devolviam.      Talvez pensem que eu era muito nova para tal literatura, mas, assim como qualquer livro que li durante a minha adolescência e juventude, ajudou-me a perpetuar o amor pela leitura e pela escrita.      Vo...

Instante fugaz

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 E porque a hora é cansaço; o passo é pensativo e a estrada é lenta. A natureza num sublime saber dedilha nas cordas do vento secando o suor e acalmando as veias do homem e do animal, que em silêncio e de passo pensativo pela estrada lenta vivem os detalhes do retorno ao lar como quem agarra a vida na hora do descanso... É o instante fugaz entre a labuta cumprida e a que ainda está por cumprir Ada Abaé no livro « e a poesia anda de galho em galho »

Manhã diferente

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escrito: segunda-feira, 21 de junho de 2010                     Às 5h30 da manhã, aqui em Edmonton, Canadá, sem conhecer nenhuma regra de futebol, assisto ao jogo de futebol entre Portugal e Coreia. Mas tenho motivos para tal.      Será que assisto ao jogo porque gosto de futebol? Não tanto assim! Por concordar com algumas irregularidades que contornam este desporto, que movimenta grandes quantias de dinheiro e grandes massas humanas? Não!      Porque a minha vida gira em torno das pessoas que amo. Então, é o apego às pessoas que são a minha vida, que me faz estar aqui neste sofá, tentando ver os golos que marcam (e, neste momento, Portugal já marcou 4 golos e Hugo Almeida acabou de levar um cartão amarelo, não sei se justo ou não; deixo isso para os entendidos em futebol).      O meu interesse é apenas o de informar o meu marido, que saiu de casa para trabalhar precisamente no inicí...

Profissionalismo para além da aparência ou idade

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    A um motorista desconhecido 8h da manhã. Vesti o casaco, enrolei o cachecol em volta do pescoço, coloquei a mala no ombro e abri a porta. Ao chegar à rua, inspirei o ar gelado. Realmente gelado. Era o primeiro dia de primavera. Uma primavera preguiçosa; a neve continuava a cair. Tudo era branco, branco, branco. Com os meus olhos limitados ao branco, dirigi-me com cuidado, caminhando sobre o gelo que cobria o chão, até à paragem do autocarro. Pouco depois ele chegou, parou e entrei. Ao entrar, aqueceu-me a alma,  porque o corpo levaria um pouco mais de tempo, um grande sorriso e um entusiasmado: — Bom dia! Como está? — cumprimentou o motorista. Respondi também com um sorriso e um muito obrigado. O afável cumprimento do motorista não foi dirigido apenas a mim, mas a todos os passageiros que iam entrando e saindo. Foi como um raio quente num lugar tão gelado! Esta simpatia faz parte de um profissionalismo que tenho o prazer de encontrar, não apenas nos autocarros, mas no...

Olha, tens que ter paciência!

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Hoje coloco aqui um texto que escrevi em 9 de fevereiro de 2011. Mas quão desatualizado estará ele? * Quando as quadras de Antonio Aleixo se enquadram: Quantas sedas que aí vão, Quantos brancos colarinhos, São pedacinhos de pão Roubados aos pobrezinhos! A ninguém faltava o pão, Se este dever se cumprisse: - Ganharmos em relação Com o que se produzisse.           Gostaria de escrever sempre palavras bonitas, mas a realidade de algumas pessoas inquieta-me demais para poder ficar serena.       Ontem, ao falar com alguém de Portugal, escutei o cansaço, a desilusão, a incerteza e o desespero de um ser humano que sabe que está a ser usado e sente que tem de ficar calado.       Recebia o ordenado mínimo, tinha um dia de folga por semana e fazia horas extras que, apesar de não serem muito bem pagas, sempre ajudavam um pouco. Agora, recebe o ordenado mínimo, faz dois horários por dia porque os seis empregados da empresa foram ...

A Outra Face de Jibacoa

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  Para além da areia branca e das águas cristalinas; a outra face de Jibacoa.      Todos os dias, aproximava-se a mesma menina. Pele e cabelos desbotados pela vida ao ar livre. Quer fosse na areia ou dentro do mar, lá vinha ela, com o olhar vivo e a mesma frase nos lábios:      — Eu não tenho casa — dizia, em espanhol, enquanto estendia a mão. — Me chamo Camila. E tu? — perguntava-me.      No olhar, que deveria ser inocente, vivia alguém precocemente adulto e manipulador. Construído, estava claro, à força pelos próprios familiares. Ao longe, distinguiam-se duas figuras adultas: os pais, rodeados por vários filhos. Incrivelmente quietos e atentos. Como se aguardassem algo, enquanto a menina se lançava, sozinha, às mãos de desconhecidos.      Se ganhasse, não importando o quê, logo corriam os outros, surgindo das dunas. Aos bandos. Muitos olhos. Esgazeados. Ansiosos, mas também astutos. Todos os dias, durante duas s...

RIDE THE WIND RANCH

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       A duzentos e dezoito quilómetros de Edmonton, no centro-oeste de Alberta, Canadá, na confluência dos rios Clearwater e North Saskatchewan e com uma longa história que vem desde o século XVIII, fica situada a pequena cidade Rocky Mountain House.      Ela serve de marco na mudança, não apenas da estrada, mas de toda a paisagem que nos conduz em direção ao Ride the Wind Ranch.      Funciona como um filtro, esvaziando-nos da poluição sonora e de toda a correria do dia a dia, a estrada de gravilha que rompe léguas e léguas da frondosa e extensa floresta. A PRIMEIRA VISITA AO RANCHO E O CAIR DA NOITE Vinte e um quilómetros depois de Rocky Mountain House, surgiu a indicação: "Ride the Wind Ranch". Quanta vida palpitava, protegida por toda aquela extensão de árvores! Do lado esquerdo, os grous-canadianos conviviam em paz com os bois. Do lado direito, dois coelhinhos brincavam livremente. Paramos ao lado da casa. No cimo das curtas e...

Desnecessário

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  Não recuso, nem acuso a tua tristeza. Apenas quero dizer-te: não lhe somes o rancor nem o julgamento. Ou seja, mais um fardo... Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Quem mora aqui?

Já não és aquele que outrora tanto amei, que, como um sol, me tomou de modo ardente; Aquele a quem ainda ontem me entreguei e sensual me arrebatou num beijo quente. Daquele claro amor, depressa te cansaste... Nesse teu olhar seco que tanto espelha a frieza, Num rigoroso descuido, não vês no que me tornaste, que me perdi ao saltar da alegria para a tristeza. Que aposento sombrio é esta noite que não tem fim, onde o segredo não se desvela... é apenas teu. Enquanto lágrimas loucas se riem de mim, eu choro o amor que de mim se perdeu. Estou tão longe de saber quem és agora; sinto que também já não sei quem sou. Parece que fomos os dois embora e que aquele amor nunca aqui morou! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Maria, tão bela!

Foi numa tarde quente que sentiu o coração apaixonado e acreditou... De pernas bambas e olhos arregalados, entregou-se, crente de que o amor se abrira como um rio. Mãos subtis desordenaram-lhe a pele, e um corcel vigoroso e húmido entranhou-se nela, igual a uma centelha acesa. Ofegante, trincou os lábios enquanto o mel lhe rasgava a selva. Depois da paixão consumada de Maria desonrada mulher imersa na desgraça, ah, Maria, Maria tão bela, perdeu toda a graça! Assim a opinião alheia exclama, indiferente se está a tentar lançar uma pérola à lama. Que estranho encanto sente o homem em provocar, no mais frágil, o pranto. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Entreguei-me com prazer

Entreguei-me com prazer, quem me pode acusar? Entreguei-me como muitas mulheres na juventude esquecendo que nos acusam de pecar os grandes pecadores deste mundo cego e rude. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Maria

Este livro é de Maria que ama a luz, ama a vida, ama o afeto, ama o abraço, ama o sol, ama o luar a mesma que nem sempre se acha, de tão perdida nos desafetos que a impedem de se encontrar. Na dificuldade em descobrir amanheceres serenos num mundo tantas vezes rude, ela acorda, lavra rochas e derrama a própria seiva em terrenos pouco amenos, no anseio de encontrar na vida, a plenitude. Repetidamente, silenciosa, perde-se na tentativa de entender o que à sua volta acontece. São muitas as vezes em que lhe dão outro nome... São tantos os que julgam conhecê-la, e nem uma só vez chegaram a vê-la. Quantas palavras absurdas lhe tentam o futuro construir e ela na dureza do enredo humano tenta cinzelar as asas. Que loucura, a falta de altura que lhe dão! Enquanto para gerar vida não se inventar outra forma: toda a natureza humana está sujeita ao ventre da mulher. É, por enquanto, norma. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack  |  Internet Archive

Almas desidratadas

Já não te peço que me escutes. Tenho de me restringir a esta irremediável passividade, fingir que não entendo a tua excessiva impaciência. Quando aumentas o volume da tua voz, já sei, estás ávido por silêncio. De mim apodera-se uma dor que me corrói a garganta. O que tu não sabes é que já nem à recordação dos dias contentes que tivemos eu recorro. Fechei essa janela... Não existe mais razão para continuar aberta. Somos almas desidratadas pelo abuso dos hábitos. A nossa linguagem foi-se transformando e fizemo-nos estranhos aos abraços que mantinham a doçura da partilha. Sabes, mesmo assim, numa última tentativa, eu queria dizer-te: Lá fora canta um passarinho... Mas calei-me ao perceber que perderas aquele ar de rapazinho que a rir, ia atrás de mim até à janela e, abraçados, caíamos naquela poesia mágica estendida pelo nosso horizonte. Perdemos as asas de fogo e desabamos no deserto... Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Poderoso gigante

Dentro de mim há um gigante, tão grande e ninguém o vê! Por vezes esconde-se, por vezes cresce, cresce... Tantas são as vezes que se ergue e arrebata a angústia, destruindo-a num gesto tão poderoso quanto ele. Com a sua mão enorme, esmaga infinitos pesadelos. Só pode mesmo ser um gigante este poderoso poder de vencer as poderosas pedras, as desmedidas barreiras que surgem das avalanches traiçoeiras e inesperadas da vida! E quando eu penso que o meu escudo protetor submergiu comigo, emerge nesta forma de gigante que ninguém vê, nem, por vezes, eu, mas que nunca deixou de estar... dentro de mim! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

A tarde vai a meio

  A tarde vai a meio e chove, meu amor. As árvores e as flores deixam-se regar pelas gotas doces que caem do céu. É como quando eu e tu passeamos pelos caminhos onde um oculto esplendor brilha num olhar que é apenas meu e teu. A tarde vai a meio e chove, meu amor. Tudo fala de tranquilidade, onde o amanhã será apenas o amanhã, e o hoje a certeza de que, ontem, um sorriso, alheio à dor, se entrelaçou na tua e na minha mão, falando serenamente de amor! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Lutas invisíveis

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       A casa parecia cheirar apenas a água a ferver.  Tem cheiro, a água quando ferve? Neste caso, sim. As bolhas libertavam o cheiro da pressa. Saltavam, ansiosas por transformar as batatas em puré. Entre os meus dedos da mão esquerda, um pobre tubérculo gemia, enquanto a direita manejava a faca e o atingia com duros cortes.       A poesia... ah! A poesia ficara à minha espera. "Que espere por melhores horas" — pensei. Naquele momento, a poesia era outra; a dos tachos, à luta com o meu cansaço. Mais um pouco, o derrotado tubérculo seria um vaidoso puré de batata nos pratos, que já esperavam na mesa.      Os convidados estavam ausentes. Encontravam-se na sala ao lado, mas ausentes. Eles não demonstravam nem um pingo de curiosidade. Se assim fosse, teriam movido a cabeça, enquanto eu desabafava o meu cansaço, batendo com mais força do que o necessário com a colher de pau nos ombros do tacho que suava a bom suar. E o pobre pano ...

Vestígios

Sinto na tua camisa lavada, neste tecido que abraço a tua pele marcada, do teu corpo que adormeceu vencido pelo cansaço, descansando sobre o meu. Lanço o olhar àquela hora em que o teu respirar se perdeu no meu peito que agora respira triste sem o teu. E sobre este tecido que aperto cai uma lágrima cansada como um grito que cai certo na tua camisa lavada! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack  | Internet Archive

Aqui

Despeço-me lentamente da noite que se vai; sinto o dia ainda como sombra encantada, e ouço a chuva que mansamente cai, acordando, inconsciente, a casta madrugada. Entre a noite e o dia, a incerteza me enlaça, hora nua, insensível e de rudes melodias, saqueia da minha boca a tal graça que apagaria, da minha alma, as rugas fundas e frias. Talvez eu sorrisse contente após esta noite sempre acordada, se visse o sol nascer no poente e o sentisse, como eu, estrela desorientada. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Lágrimas

Gotinhas húmidas e transparentes queimam o meu rosto cansado! Mas não são lume! São lágrimas fortes e quentes, são um grito silenciado num silencioso queixume. São um livro fechado tão quase depois de o abrir, são o poema inacabado que a meio quis partir. E nessa lágrima transparente, nesse silencioso queixume, morreu o sorriso inocente numa gotinha quente que queima sem ser lume! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

O corvo e a tempestade

A noite ficou escura e o vento sopra torvo, a chuva bate tão solitária na janela, talvez fuja do agouro do corvo que bate as negras asas atrás dela. Por que chove assim, canta o corvo e sopra o vento, se nem sequer é dezembro, mas sim agosto?! Espreito pela vidraça e vejo o vento violento a fazer girar o corvo que brinca bem-disposto. Murmurei, lenta, alguns ais, sem entender a negrura dos espaços celestiais, para, de seguida, sorrir enternecida ao perceber que, enquanto eu fiquei desorientada, aborrecida por uma tempestade que chegou perdida, o corvo abriu as asas, quis brincar... quis viver! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Gloriosa jornada

Um verso de amor no bico da ave, que em pequenas porções oferece a força à pequena cria, que recebe a dádiva com alegria. É uma gloriosa jornada: do bico da mãe ao bico da cria. Felizes das aves cuja grandeza abrange a veracidade do verbo viver, pois ainda sabem que toda criatura que vive tem direito a alimento. E o amor mistura-se, bico abaixo: completo sustento. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Papillon

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  Nariz longo e afilado entre os olhos tristes e derrotados. Ossudas maçãs do rosto reprimindo questões esgotadas. O medo serpenteando-lhe o cérebro. Entre a chávena do café e os cotovelos, um papel branco. A mão esquerda segurando o queixo, enquanto a direita entorpecida pela rotina do trabalho fabril, desenhava um cavalo.     Subitamente, viu o seu colo magro invadido por um cão de pequeno porte. Apesar do seu isolamento na esplanada barulhenta deixou que todo aquele pelo branco se acomodasse nas suas pernas. O cão colocando uma das patas sobre o papel, saudou:     — Olá, fantástico homem.     — Fantástico sonhador! O mais importante que faço na vida é olhar garrafas correndo numa passadeira. Sou um ridículo.     — Se tu te achas um ridículo, ridículo serás. Um cavalo?     — Rocinante? Talvez como Dom Quixote, conquiste a Dulcineia que almejo; ela quer-me herói. Queria tanto dançar com ela, mas ela diz que fico melhor a um canto. ...

Pintura

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  Deixei-me apaixonada, descansar... como o rosto pintado numa tela, belo instante; sobre o teu colo disposta a amar Escrava dos teus dedos... delirante! Sou como o pano pronto a colorir, vaporoso... Que se estende e submete à pintura, onde tu hábil pintor, virtuoso, juntas os nossos corpos... aquarela pura! E depois dos nossos instintos cansados, descansas os dedos, iguais a pincéis suados... E eu plácida, no teu peito, descontraída... Que pintura real! Que plenitude! Que beleza! Que deixa num quadro a virtude, a certeza de que o amor é o plasma da vida! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack