Mensagens

A mostrar mensagens de 2026

O fanfarrão

Imagem
       Um jovem professor de inglês, de aparência extrovertida e sorriso constante. Bem vestido, com um ar vaidoso. Alto, magro e um pouco musculado. Daqueles que frequentam um ginásio porque é moda. Um fanfarrão!      — Posso? — perguntou, sorrindo, ao homem que conhecia de vista. Ambos frequentavam o mesmo café e quase sempre à mesma hora.      — Claro! Já que puxaste a cadeira, senta-te à vontade — respondeu Alberto. Rapaz de trinta e dois anos, estatura média e um ar de quem é apenas o que é.      — Estás a beber café simples? Eu quero um café com chocolate. É uma bebida com classe. Aqui entre nós, as mulheres gostam quando me veem a beber café com chocolate — disse Cristiano. Ria. Por vezes, dava a sensação de que o fazia não por vontade própria, mas para mostrar os dentes extremamente brancos.      O outro não respondeu. Tagarela como era, o jovem professor continuou:      — Na empresa d...

Pontes

Imagem
            Hoje não necessitei de me refugiar na floresta. Algo emocionante aconteceu fora dela.       À vista de todos, embora nem todos tenham espírito inclinado a olhar e ver. Três representações diplomáticas anunciaram a sua presença num território gelado do norte. Não foi apenas um acontecimento diplomático. Foram humanos a demonstrar que podem viver em paz, independentemente da etnia e da situação geográfica.      Num mundo que frequentemente ergue bandeiras como se fossem muros, esta reunião, numa manhã gelada, demonstrou que é possível estar presente sem dominar, cooperar sem apagar, respeitar sem uniformizar.      Aquela ilha não é apenas um ponto estratégico no mapa, como alguns a querem fazer parecer. É um lugar vivo, com pessoas, cultura e história próprias.      Tocou-me a simplicidade dos presentes. Não houve discursos grandiosos nem promessas exageradas. Esta cerimónia dem...

Talvez excesso

Imagem
       Muitos dias sem abrir este caderno. Mas tenho aberto outros.      Depois da publicação de Pássaros em viagem, iniciei a organização e revisão de contos, crónicas e cartas para Entre diferenças. Quando esse trabalho estiver concluído, regressarei a Centúria, que, apesar de muito adiantado, ainda tem um longo caminho a percorrer. Entretanto, nasceu um romance, Fúria. E permanece este diário, ao qual volto sempre que sinto necessidade de ordenar os pensamentos.      Para além da escrita, existe a administração do blogue Ponto & Vírgula, do site Aquífero, do meu blogue pessoal e dos dois canais do YouTube. A tudo isto somam-se as tarefas diárias. Talvez seja essa abundância de projetos que me faz sentir tão confusa. Mas não é a única razão.      Uma enxurrada diária de notícias disputa a nossa atenção. Raramente temos a coragem de desligar. O mundo corre a uma velocidade difícil de acompanhar e nós, talvez por vaida...

A memória da mão

Imagem
       Após a compra do caderno, levei alguns dias a abri-lo e a aventurar-me por ele. Durante muitos anos, habituei-me a escrever apenas no computador.      Senti-me um pouco triste ao aperceber-me de que quase já não sabia escrever à mão. A mão movia a caneta sem acompanhar o ritmo do pensamento. Parecia correr pelo caderno, deixando simples riscos apressados. Foi difícil o acerto para que as letras, uma a uma, se desenhassem. A minha caligrafia nunca foi muito bonita, mas passou a ser muito pior. Quase irreconhecível até para mim.      Ainda que frustrada com as primeiras frases, lembrei-me de todo o percurso desde a decisão de comprar o caderno até à compra concreta. E insisti.      Por que hesitei tanto em voltar à escrita manual? Pensava que iria perder muito tempo. No entanto, apercebi-me de quanto isso é benéfico. Enquanto escrevo no caderno, a mão habitua-se ao comando de uma consciência diferente. O cérebro parec...

O regresso ao caderno

Imagem
       A hesitação é uma das armas que a nossa mente nos aponta para que adiemos uma ação, uma mudança.      Com quase sessenta e cinco anos, continuo a sentir que são inúmeras as mudanças que desejo fazer. Hoje refiro-me especificamente ao ato de escrever à mão, num caderno. Sem internet, longe de qualquer influência das redes sociais que tanto nos distraem.      E porquê? Falta de inspiração, dificuldade de concentração e, consequentemente, procrastinação. Como já referi inúmeras vezes, escrever, para mim, é vida. Por muito ocupados que sejam os meus dias, se não escrevo, sinto-me a boiar num vazio que me magoa. Talvez, para concretizar um objetivo, seja importante não esquecer os passos dados.      Ontem, enquanto tomava o pequeno-almoço, pensei: — É hoje. Hoje vou comprar um caderno e reiniciar a escrita manual. Acabei de comer, lavei a louça, dirigi-me ao closet e escolhi a roupa (sou muito rápida nisso), tomei um duc...

Honoré de Balzac

Imagem
              Quando li Balzac pela primeira vez, tinha doze anos.      Nessa época, na minha mente ainda infantil, imaginava Balzac como um super-homem. De grande porte, poderoso, com tronco e braços capazes de abraçar e proteger o mundo.      Os seus grandes romances, na estante da sala da minha avó, assim como a maioria dos livros nela colocados, chamavam-me para conhecer as personagens que por ali habitavam. Sem hora marcada para entrar nem para sair, ali ficava eu, explorando as características de cada uma, deixando-me levar por sentimentos ora tristes, ora alegres; ora de compaixão, ora de revolta. Imaginava o autor a construir cada detalhe dos mundos que absorviam tanto de mim e muito me devolviam.      Talvez pensem que eu era muito nova para tal literatura, mas, assim como qualquer livro que li durante a minha adolescência e juventude, ajudou-me a perpetuar o amor pela leitura e pela escri...

Instante fugaz

Imagem
 E porque a hora é cansaço; o passo é pensativo e a estrada é lenta. A natureza num sublime saber dedilha nas cordas do vento secando o suor e acalmando as veias do homem e do animal, que em silêncio e de passo pensativo pela estrada lenta vivem os detalhes do retorno ao lar como quem agarra a vida na hora do descanso... É o instante fugaz entre a labuta cumprida e a que ainda está por cumprir Ada Abaé no livro « e a poesia anda de galho em galho »

Manhã diferente

Imagem
escrito: segunda-feira, 21 de junho de 2010           Às 5h30 da manhã, aqui em Edmonton, Canadá, sem conhecer nenhuma regra de futebol, assisto ao jogo de futebol entre Portugal e Coreia. Mas tenho motivos para tal.      Será que assisto ao jogo porque gosto de futebol? Não tanto assim! Por concordar com algumas irregularidades que contornam este desporto, que movimenta grandes quantias de dinheiro e grandes massas humanas? Não!      Porque a minha vida gira em torno das pessoas que amo. Então, é o apego às pessoas que são a minha vida, que me faz estar aqui neste sofá, tentando ver os golos que marcam (e, neste momento, Portugal já marcou 4 golos e Hugo Almeida acabou de levar um cartão amarelo, não sei se justo ou não; deixo isso para os entendidos em futebol).      O meu interesse é apenas o de informar o meu marido, que saiu de casa para trabalhar precisamente no inicío do jogo, e de ir trocando impressões c...

Profissionalismo para além da aparência ou idade

Imagem
    A um motorista desconhecido 8h da manhã. Vesti o casaco, enrolei o cachecol em volta do pescoço, coloquei a mala no ombro e abri a porta. Ao chegar à rua, inspirei o ar gelado. Realmente gelado. Era o primeiro dia de primavera. Uma primavera preguiçosa; a neve continuava a cair. Tudo era branco, branco, branco. Com os meus olhos limitados ao branco, dirigi-me com cuidado, caminhando sobre o gelo que cobria o chão, até à paragem do autocarro. Pouco depois ele chegou, parou e entrei. Ao entrar, aqueceu-me a alma,  porque o corpo levaria um pouco mais de tempo, um grande sorriso e um entusiasmado: — Bom dia! Como está? — cumprimentou o motorista. Respondi também com um sorriso e um muito obrigado. O afável cumprimento do motorista não foi dirigido apenas a mim, mas a todos os passageiros que iam entrando e saindo. Foi como um raio quente num lugar tão gelado! Esta simpatia faz parte de um profissionalismo que tenho o prazer de encontrar, não apenas nos autocarros, mas no...

Olha, tens que ter paciência!

Imagem
Hoje coloco aqui um texto que escrevi em 9 de fevereiro de 2011. Mas quão desatualizado estará ele? * Quando as quadras de Antonio Aleixo se enquadram: Quantas sedas que aí vão, Quantos brancos colarinhos, São pedacinhos de pão Roubados aos pobrezinhos! A ninguém faltava o pão, Se este dever se cumprisse: - Ganharmos em relação Com o que se produzisse.           Gostaria de escrever sempre palavras bonitas, mas a realidade de algumas pessoas inquieta-me demais para poder ficar serena.       Ontem, ao falar com alguém de Portugal, escutei o cansaço, a desilusão, a incerteza e o desespero de um ser humano que sabe que está a ser usado e sente que tem de ficar calado.       Recebia o ordenado mínimo, tinha um dia de folga por semana e fazia horas extras que, apesar de não serem muito bem pagas, sempre ajudavam um pouco. Agora, recebe o ordenado mínimo, faz dois horários por dia porque os seis empregados da empresa foram ...

A Outra Face de Jibacoa

Imagem
  Para além da areia branca e das águas cristalinas; a outra face de Jibacoa.      Todos os dias, aproximava-se a mesma menina. Pele e cabelos desbotados pela vida ao ar livre. Quer fosse na areia ou dentro do mar, lá vinha ela, com o olhar vivo e a mesma frase nos lábios:      — Eu não tenho casa — dizia, em espanhol, enquanto estendia a mão. — Me chamo Camila. E tu? — perguntava-me.      No olhar, que deveria ser inocente, vivia alguém precocemente adulto e manipulador. Construído, estava claro, à força pelos próprios familiares. Ao longe, distinguiam-se duas figuras adultas: os pais, rodeados por vários filhos. Incrivelmente quietos e atentos. Como se aguardassem algo, enquanto a menina se lançava, sozinha, às mãos de desconhecidos.      Se ganhasse, não importando o quê, logo corriam os outros, surgindo das dunas. Aos bandos. Muitos olhos. Esgazeados. Ansiosos, mas também astutos. Todos os dias, durante duas s...

RIDE THE WIND RANCH

Imagem
       A duzentos e dezoito quilómetros de Edmonton, no centro-oeste de Alberta, Canadá, na confluência dos rios Clearwater e North Saskatchewan e com uma longa história que vem desde o século XVIII, fica situada a pequena cidade Rocky Mountain House.      Ela serve de marco na mudança, não apenas da estrada, mas de toda a paisagem que nos conduz em direção ao Ride the Wind Ranch.      Funciona como um filtro, esvaziando-nos da poluição sonora e de toda a correria do dia a dia, a estrada de gravilha que rompe léguas e léguas da frondosa e extensa floresta. A PRIMEIRA VISITA AO RANCHO E O CAIR DA NOITE Vinte e um quilómetros depois de Rocky Mountain House, surgiu a indicação: "Ride the Wind Ranch".  Quanta vida palpitava, protegida por toda aquela extensão de árvores! Do lado esquerdo, os grous-canadianos conviviam em paz com os bois. Do lado direito, dois coelhinhos brincavam livremente.     Paramos ao lado da casa. No cim...

Desnecessário

Imagem
  Não recuso, nem acuso a tua tristeza. Apenas quero dizer-te: não lhe somes o rancor nem o julgamento. Ou seja, mais um fardo... Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Quem mora aqui?

Já não és aquele que outrora tanto amei, que, como um sol, me tomou de modo ardente; Aquele a quem ainda ontem me entreguei e sensual me arrebatou num beijo quente. Daquele claro amor, depressa te cansaste... Nesse teu olhar seco que tanto espelha a frieza, Num rigoroso descuido, não vês no que me tornaste, que me perdi ao saltar da alegria para a tristeza. Que aposento sombrio é esta noite que não tem fim, onde o segredo não se desvela... é apenas teu. Enquanto lágrimas loucas se riem de mim, eu choro o amor que de mim se perdeu. Estou tão longe de saber quem és agora; sinto que também já não sei quem sou. Parece que fomos os dois embora e que aquele amor nunca aqui morou! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Maria, tão bela!

Foi numa tarde quente que sentiu o coração apaixonado e acreditou... De pernas bambas e olhos arregalados, entregou-se, crente de que o amor se abrira como um rio. Mãos subtis desordenaram-lhe a pele, e um corcel vigoroso e húmido entranhou-se nela, igual a uma centelha acesa. Ofegante, trincou os lábios enquanto o mel lhe rasgava a selva. Depois da paixão consumada de Maria desonrada mulher imersa na desgraça, ah, Maria, Maria tão bela, perdeu toda a graça! Assim a opinião alheia exclama, indiferente se está a tentar lançar uma pérola à lama. Que estranho encanto sente o homem em provocar, no mais frágil, o pranto. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Entreguei-me com prazer

Entreguei-me com prazer, quem me pode acusar? Entreguei-me como muitas mulheres na juventude esquecendo que nos acusam de pecar os grandes pecadores deste mundo cego e rude. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Maria

Este livro é de Maria que ama a luz, ama a vida, ama o afeto, ama o abraço, ama o sol, ama o luar a mesma que nem sempre se acha, de tão perdida nos desafetos que a impedem de se encontrar. Na dificuldade em descobrir amanheceres serenos num mundo tantas vezes rude, ela acorda, lavra rochas e derrama a própria seiva em terrenos pouco amenos, no anseio de encontrar na vida, a plenitude. Repetidamente, silenciosa, perde-se na tentativa de entender o que à sua volta acontece. São muitas as vezes em que lhe dão outro nome... São tantos os que julgam conhecê-la, e nem uma só vez chegaram a vê-la. Quantas palavras absurdas lhe tentam o futuro construir e ela na dureza do enredo humano tenta cinzelar as asas. Que loucura, a falta de altura que lhe dão! Enquanto para gerar vida não se inventar outra forma: toda a natureza humana está sujeita ao ventre da mulher. É, por enquanto, norma. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack  |  Internet Archive

Almas desidratadas

Já não te peço que me escutes. Tenho de me restringir a esta irremediável passividade, fingir que não entendo a tua excessiva impaciência. Quando aumentas o volume da tua voz, já sei, estás ávido por silêncio. De mim apodera-se uma dor que me corrói a garganta. O que tu não sabes é que já nem à recordação dos dias contentes que tivemos eu recorro. Fechei essa janela... Não existe mais razão para continuar aberta. Somos almas desidratadas pelo abuso dos hábitos. A nossa linguagem foi-se transformando e fizemo-nos estranhos aos abraços que mantinham a doçura da partilha. Sabes, mesmo assim, numa última tentativa, eu queria dizer-te: Lá fora canta um passarinho... Mas calei-me ao perceber que perderas aquele ar de rapazinho que a rir, ia atrás de mim até à janela e, abraçados, caíamos naquela poesia mágica estendida pelo nosso horizonte. Perdemos as asas de fogo e desabamos no deserto... Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack