Esse luar atrapalha, não me serve mais!
Colheu-me como quem colhe,
distraído, uma flor
esquecendo que sou igual às flores reais
que após colhida perde todo o esplendor.
Com um certo comodismo deixei-me ficar,
esqueci o jardim, onde a luz era alimento,
deixei a raiz longe da fonte, a secar,
e o caule doente, murmurando sedento:
— Esse luar atrapalha!
Por longo tempo ele escondeu, discreto,
que nem todos os luares são afetos.
Quero voltar ao útero materno
e dentro de mim
reaprender a fidelidade da ave ao voo,
e voar,
renovar a raiz, curar o caule, ser jardim,
sem ao velho retornar, pois, ah — esse luar,
esse luar atrapalha!
Ada Abaé
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