quarta-feira, 29 de abril de 2026

Papillon

 

Nariz longo e afilado entre os olhos tristes e derrotados. Ossudas maçãs do rosto reprimindo questões esgotadas. O medo serpenteando-lhe o cérebro. Entre a chávena do café e os cotovelos, um papel branco. A mão esquerda segurando o queixo, enquanto a direita entorpecida pela rotina do trabalho fabril, desenhava um cavalo.
    Subitamente, viu o seu colo magro invadido por um cão de pequeno porte. Apesar do seu isolamento na esplanada barulhenta deixou que todo aquele pelo branco se acomodasse nas suas pernas. O cão colocando uma das patas sobre o papel, saudou:
    — Olá, fantástico homem.
    — Fantástico sonhador! O mais importante que faço na vida é olhar garrafas correndo numa passadeira. Sou um ridículo.
    — Se tu te achas um ridículo, ridículo serás. Um cavalo?
    — Rocinante? Talvez como Dom Quixote, conquiste a Dulcineia que almejo; ela quer-me herói. Queria tanto dançar com ela, mas ela diz que fico melhor a um canto. Nem dançar sei!
    — Estás grávido.
    — Quê?
    — De medo. Não te preocupes; é possível o aborto. Estou aqui eu.
    — Um minúsculo Papillon com orelhas de borboleta.
    — Cheio de vontade. Serve-te do que tens.
Francisco riu trocista. Papillon arreliado saltou para o chão, revirou os olhos, arreganhou os dentes e lançou-se ferozmente a um dos seus pés. Francisco assustado levantou-se e recuou.
    — Não recues homem, reage — rosnou o cão, atacando-lhe alternadamente cada um dos pés. Francisco aprendia a dançar. Adeus, vergonha; era urgente salvar os pés.
    Um acordeão aumentou a diversão. Viu, entre os espectadores, uma outra Dulcineia dançando.     Aceitava-o sem disfarces. Sorriu; os medos eram moinhos de vento.
    Papillon? Aplaudia dentro de si! 

Ada Abaé


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