terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Comparações
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
Silêncio que Restaura
Depois da
nossa última discussão, calei-me. Reparaste que me calei? Não penses que foi
fácil.
Na última
noite em que discutimos, deitámo-nos de costas voltadas um para o outro. Eu já
tinha decidido fechar os olhos e dormir, mas tu, pelo resultado, não te
deitaste com o mesmo objetivo.
Falaste,
falaste noite inteira. Levantaste-te algumas vezes, sempre a falar. Que vontade
eu tinha de levantar-me também e rebater cada palavra tua, mas limitei-me a
imaginar a tua figura inquieta, invasora do sossego do quarto.
Não foi fácil,
não! A força com que cerrava a boca revolvia-me as entranhas tão intensamente
que, quatro dias depois, ainda sentia os maxilares doridos… o corpo inteiro a
pedir descanso.
As tuas
palavras, a minha mente guardou-as todas, como se as tivesse escrito numa folha
de papel. As poucas horas que dormimos não apagaram o desconforto existente
entre nós e, apesar de tentarmos falar coisas triviais, elas ainda passam
diante dos nossos olhos como um filme que deixa marcas, de tão intenso que é.
Que desgaste
emocional! Sei que voltará a acontecer. De fecharei o canal das palavras que,
na hora cega, poderão sair inconsequentes.
Tantas serão
as vezes que falarás sozinho que acabarás por te calares. Não, não penses que é
desprezo. Durante estes dias em que fiquei calada, não só melhorei o meu estado
de saúde, como abri uma porta que me levou a um melhor entendimento.
O que vou
escrever a seguir não é para renovar a discussão, mas para alertar o quanto nos
podemos afastar da nossa essência quando priorizamos o ego. Pois, por vezes,
ele tem lentes demasiado baças.
Repetiste
várias vezes: “Sou um parvo! Não valho nada!”
A essas
afirmações seguiam-se lamentos de autopiedade: “Os homens trabalhadores são
parvos! Não são apreciados, talvez nem por Deus. Não me respondes? Prova do teu
desprezo por mim! Que loucura, nem sei quem sou! A minha mãe nunca me
desprezou. O meu pai morreu louco, batia na minha mãe e ela aguentou. Passei
dez horas sem comer e ninguém reparou. Os grandes homens só são grandes se
tiverem alma grande” — gritavas — “que pensamento tolo, o dos homens com grande
alma que pensam que servem para alguma coisa, só porque são grandes almas!
Coitados, apenas servem para inspirar teorias, pois na prática as grandes almas
servem o interesse dos humanos. Na realidade, o que sou eu? Nada!” —
continuavas a gritar.
Apesar de não
te ver, via-te.
Imaginava, no
escuro, os teus olhos lançando faíscas de raiva, a boca espumando as entranhas
contraídas. As minhas, apesar de quieta e calada, continuavam a doer.
A autopiedade
é uma prisão. Não desejas ser livre?
Eu sei que
podes pensar que esta frieza revela falta de amor, mas um dia, após um período
de paz, entenderás que o meu silêncio foi respeito. Respeito por ti, por mim,
pela missão individual que cada um de nós deve cumprir enquanto carnais. Ressuscitemos
a nossa integridade, deixando partir o eco das palavras perigosas que, aos
poucos, podem convencer-nos de que é através delas que encontraremos a nossa
razão. Nunca uma multidão de insultos fará de alguém um vencedor.
Quem sabe um
dia nos amemos verdadeiramente. De outra forma. Pois o amor conjugal pode
adoecer e ter de partir para que eu não desfaleça também. Ficará um outro amor.
Aquele que se compadece da frágil condição humana e reconhece que eu, tu, todos
nós habitamos o mesmo mundo onde a perfeição não existe.
Lancemos luz à
nossa essência, para que os nocivos hábitos do ego experimentem a transmutação.
segunda-feira, 27 de outubro de 2025
Sem punição
possuir o desconhecido bem vestido que passa,
para possuirmos a vida dele.
Possuir a bela mulher modelo,
para possuirmos as suas linhas perfeitas.
Corremos à pressa às lojas,
para comprarmos e possuir o shampoo ou o creme,
que como milagre, em poucos dias,
nos transformarão iguais a quem foi pago
para nos induzir a possuir.
Queremos possuir as lojas de roupa,
para as trazer para casa.
É necessário possuir para nos sentirmos importantes,
e acabamos envergonhados do que temos.
Por vergonha, continuamos a correr em busca da posse,
e acabamos por aprender a roubar
sem o perigo de sermos presos;
não existe prisão para quem rouba a identidade
do pai, da mãe, do irmão...
A modéstia é um suplício,
a nossa alegria é poder dizer que somos filhos
de doutores, nunca de um analfabeto.
O nosso irmão é um príncipe,
porque o nosso equilíbrio está na inveja
que provocamos nos outros.
E tudo isso porque aprendemos
a dar primazia à aparência janota
do boneco que somos.
O boneco que somos
só pode ser dono de um palácio,
só pode ser descendente de um rei e de uma rainha.
Por isso, mãe, pai, irmão, filho, filha
só aparecem onde eu decidir
e só abrem a boca se eu decidir:
Não venham a ser a minha vergonha.
E devoramos o outro,
sem punição...
sexta-feira, 24 de outubro de 2025
Contemplação
segunda-feira, 20 de outubro de 2025
Sem esquecer
Dormi mal. Nada de estranho nas minhas noites. Enrolados nas voltas que dei na cama andaram os pensamentos. Antes das cinco da manhã resolvi levantar-me. Levantei-me com um pensamento fixo: preciso de escrever à Carmen.
À primeira vista, como se tivesse que pagar uma dívida. Mas não. Na amizade não existem dívidas. Existem períodos silenciosos. Silêncios que não matam a amizade. A verdadeira guarda-se, ela própria, num cofre com um código seguro: fidelidade.
Voltando ao momento real que me envolve: bebo um café, imaginando estar frente a frente contigo, com as minhas mãos nas tuas. Conversamos tão naturalmente como se sempre o tivéssemos feito.
Quanto mais avanço na idade, maior é a certeza do que e de quem foi realmente importante para mim, e do que se torna inesquecível. Caminham comigo, diariamente, embora nem sempre com a mesma densidade, os tesouros que fui armazenando.
Sim, porque feridas, embora fiquem as cicatrizes, não as guardo na sala dos tesouros. Estão noutro lugar: no meu dicionário pessoal. Dicionário importantíssimo! Indispensável!
Convém retornar a “embora nem sempre na mesma densidade”, pois ambas sabemos que as memórias oscilam consoante o momento e o nosso estado de espírito.
Guardo com muita ternura os programas da rádio, tardes que entravam pela noite dentro. Foram momentos de interação muito ricos. Mas, para além da rádio, existiram as nossas mensagens. A tua disposição para ler os meus contos. A única leitora que tive durante muito tempo. Depois ganhei uma outra: Irene Coimbra.
Ainda assim, apenas com duas leitoras continuo a escrever. A escrita faz parte das minhas células. Se passar mais do que um dia sem o fazer, deixo de viver. Não sofro por não ter leitores. Nem todos usufruem do privilégio de ter leitoras tão atentas.
Para mim, eras suficiente. Transmitias-me coragem para continuar.
Os teus extensos e pormenorizados comentários, que ainda hoje guardo, e que serão integrados no livro, esses, sim, são tesouros valiosos.
Não, Carmen, ainda não os publiquei.
Perguntaste-me várias vezes:
— Para quando?
No próximo ano. Com toda a certeza ou, melhor, com a certeza que nos é permitida como seres humanos.
Voltando à nossa mesa de café, ainda mãos nas mãos: senti daqui, bem longe, a tua dor quando perdeste a tua mãe; o modo carinhoso como cuidaste do teu pai, o que me inspirou a escrever alguns contos.
É impossível, apenas em algumas linhas, descrever todos os sentimentos. Sei que somos diferentes, mas a amizade e o amor são um universo onde as diferenças existem para enriquecer as relações.
Quero dizer-te que te admiro, que és uma mulher inteligente, com quem sempre gostei de “conversar”.
Quem sabe, talvez um dia tenha o prazer de te abraçar e tornar real este café imaginário.
domingo, 19 de outubro de 2025
Distância, sem ausência
Como sempre, hoje pensei em ti.
Mais do que em qualquer outro dia. Depois das quatro da tarde, quando fui para a cozinha, pensei ainda mais. Não sei bem porquê.
Enquanto descascava os inhames e as cenouras para preparar a sopa, imaginei-nos sentadas a saborear o creme quentinho e delicioso. Não nos faltaria assunto.
Na nossa história vivem infinitas horas de diálogos, reflexões e desabafos.
Quando a distância se estendia por dias, era ao telefone que acalmávamos a saudade. À noite, depois dos meus filhos adormecerem, falávamos sem parar.
Quantas caminhadas fizemos juntas, sem nos cansarmos e sem contar os quilómetros, nem reparar na condição das estradas. Lembro-me bem dos teus sorrisos para os meus filhos, ainda tão pequeninos, mesmo quando faziam diabruras.
O curioso é que não consigo lembrar-me do momento exato em que nos conhecemos, nem de como a nossa amizade se tornou tão forte. Não me lembro da primeira vez que entrei na tua casa, nem tu na minha. Tudo parece ter existido desde sempre. É algo maior, inexplicável, como se pertencêssemos a um só espírito.
Cuidaste de mim. Ficaste ao meu lado por longos períodos.
Aos olhos de outros, estas linhas podem não passar de um texto, mas carregam o amor que sinto.— aquele que se sente sem razão. Amor que não se apaga com a distância. Na nossa distância, não há ausência. Diariamente, abraço-te e converso contigo.
Vejo-te agora, deitada no teu quarto, a aguentar dores que ninguém deveria suportar. Gostaria de poder aliviar o teu sofrimento, tornar tudo mais leve.
Quando passeio por aqui, imagino-te ao meu lado. Sorrimos com os esquilos brincalhões, admiramos os gansos no lago e sentimos a força silenciosa das árvores do bosque.
Esta carta… (Ainda existem cartas hoje em dia? As pessoas escrevem cartas? As pessoas leem cartas?) Não importa.
Esta carta, que senti tanta necessidade de escrever, é o abraço que quero dar-te a cada instante. É também a oração que quero fazer a Deus: por ti, por mim, pela tua mãe, pela humanidade. Que o Grande Espírito nos acompanhe — a nós, que tantas vezes nos julgamos poderosos e carregamos um mal aparentemente incurável: superioridade.
Preciso também de dizer-te que, nos momentos mais difíceis, estiveste sempre presente — muito mais do que eu. Acompanhaste-me no funeral da minha avó. Eu, sempre tão ocupada, não estive presente no funeral do teu pai. E agora, além dos teus problemas de saúde, enfrentas a doença da tua mãe. Eu, tão distante, sofro, acredita, sofro muito.
Para não te cansar, termino por aqui. Quando puderes, diz algo. Um simples Emoji é suficiente, se não tiveres coragem de escrever.
Escreverei mais. Esta necessidade de escrever-te não se contenta com uma única carta.
Quero dizer-te — e é preciso dizê-lo enquanto estamos vivas — que te amo, minha amiga. Tu és a irmã que tive a liberdade de escolher.
Efeito
sábado, 18 de outubro de 2025
Mexericos
Necessário acordar
Na descoberta lenta que venho fazendo de mim,
sexta-feira, 17 de outubro de 2025
Fragilidades
quinta-feira, 16 de outubro de 2025
Sessenta cêntimos
Calcei as botas
Promessas
Escondidos pelos pinheiros,
Entre Corpo, Alma e Espírito
quarta-feira, 15 de outubro de 2025
Aprendemos, aceitamos e devoramo-nos
ao ódio de paixão.
Polimo-nos até sufocar nas aparências,
e os senhores poderosos,
ainda que mundanos,
exigem-nos mansidão e silêncio às nossas questões.
acabamos todos por viver no reflexo de cada um,
como se fôssemos modelos de trapo nas mãos de costureiros
que, zombando da nossa feiura,
escondem os defeitos dos seus pontos.
e sorrimos...
Sorrimos como patetas que lutam por um futuro
que nos prende
mais e mais.
com a exata proporção do que somos.
que nem sempre nos abriga em tempos frágeis,
mas que não falta para comprar armas
para matar o nosso semelhante;
quem sabe, até os próprios filhos.
Vivemos em constante rutura com a nossa verdade
e inventamos histórias que nos impossibilitam
a verdadeira comunicação.