terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Comparações

     

            Uma das particularidades do ser humano é o enorme hábito de comparar.
  Comparamos o que temos, o que fazemos, o que somos. Comparamos o outro a partir de fragmentos, impressões parciais. E, quando o fazemos, estreitamos não apenas o campo de visão sobre aquilo ou aquele que avaliamos: estreitamos também o nosso próprio horizonte interior.
        Toda a comparação é uma forma de enclausuramento. Tanto do objeto observado como do sujeito que observa.
        Nada nem ninguém pode ser realmente comparado.
  É verdade que os seres humanos partilham emoções e impulsos semelhantes, mas cada pessoa é uma única história, composta por memórias, desejos, mágoas, batalhas...
        Para uma comparação justa, teríamos de conhecer totalmente aqueles que julgamos medir.
  Teríamos de saber tudo: o que sentem, o que desejam, o que temem, o que viveram secretamente e o que escondem até de si próprios.
  Teríamos de atravessar a totalidade da sua biografia emocional. Mas o conhecimento absoluto do outro é impossível assim como o do nosso próprio ser também o é.
        Comparar é uma ilusão. Uma tentativa de tornar simples o que é complexo; uma tentativa de encaixar o mistério do humano em categorias.
    Comparar é salientar as falhas do outro, ignorando que talvez ele esteja numa fase de melhoramento. Até que algo se torne visível, já caminhou muito no invisível. Antes que alguém mostre mudanças, já feriu profundamente as próprias entranhas, passou por cirurgias internas e longos tempos de cicatrização.
    Quando percebemos isto, libertamo-nos. Afastamo-nos da necessidade de medir para entender, da urgência de igualar para aceitar ou repudiar, da pressa de definir para explicar. E abrimos espaço para a verdadeira relação: aquela que se constrói não por semelhança ou diferença, mas por empatia, por afeto, pelo outro que existe, assim como nós existimos.

Ada Abaé


quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Silêncio que Restaura

 

Depois da nossa última discussão, calei-me. Reparaste que me calei? Não penses que foi fácil.

Na última noite em que discutimos, deitámo-nos de costas voltadas um para o outro. Eu já tinha decidido fechar os olhos e dormir, mas tu, pelo resultado, não te deitaste com o mesmo objetivo.

Falaste, falaste noite inteira. Levantaste-te algumas vezes, sempre a falar. Que vontade eu tinha de levantar-me também e rebater cada palavra tua, mas limitei-me a imaginar a tua figura inquieta, invasora do sossego do quarto.

Não foi fácil, não! A força com que cerrava a boca revolvia-me as entranhas tão intensamente que, quatro dias depois, ainda sentia os maxilares doridos… o corpo inteiro a pedir descanso.

As tuas palavras, a minha mente guardou-as todas, como se as tivesse escrito numa folha de papel. As poucas horas que dormimos não apagaram o desconforto existente entre nós e, apesar de tentarmos falar coisas triviais, elas ainda passam diante dos nossos olhos como um filme que deixa marcas, de tão intenso que é.

Que desgaste emocional! Sei que voltará a acontecer. De fecharei o canal das palavras que, na hora cega, poderão sair inconsequentes.

Tantas serão as vezes que falarás sozinho que acabarás por te calares. Não, não penses que é desprezo. Durante estes dias em que fiquei calada, não só melhorei o meu estado de saúde, como abri uma porta que me levou a um melhor entendimento.

O que vou escrever a seguir não é para renovar a discussão, mas para alertar o quanto nos podemos afastar da nossa essência quando priorizamos o ego. Pois, por vezes, ele tem lentes demasiado baças.

Repetiste várias vezes: “Sou um parvo! Não valho nada!”

A essas afirmações seguiam-se lamentos de autopiedade: “Os homens trabalhadores são parvos! Não são apreciados, talvez nem por Deus. Não me respondes? Prova do teu desprezo por mim! Que loucura, nem sei quem sou! A minha mãe nunca me desprezou. O meu pai morreu louco, batia na minha mãe e ela aguentou. Passei dez horas sem comer e ninguém reparou. Os grandes homens só são grandes se tiverem alma grande” — gritavas — “que pensamento tolo, o dos homens com grande alma que pensam que servem para alguma coisa, só porque são grandes almas! Coitados, apenas servem para inspirar teorias, pois na prática as grandes almas servem o interesse dos humanos. Na realidade, o que sou eu? Nada!” — continuavas a gritar.

Apesar de não te ver, via-te.

Imaginava, no escuro, os teus olhos lançando faíscas de raiva, a boca espumando as entranhas contraídas. As minhas, apesar de quieta e calada, continuavam a doer.

A autopiedade é uma prisão. Não desejas ser livre?

Eu sei que podes pensar que esta frieza revela falta de amor, mas um dia, após um período de paz, entenderás que o meu silêncio foi respeito. Respeito por ti, por mim, pela missão individual que cada um de nós deve cumprir enquanto carnais. Ressuscitemos a nossa integridade, deixando partir o eco das palavras perigosas que, aos poucos, podem convencer-nos de que é através delas que encontraremos a nossa razão. Nunca uma multidão de insultos fará de alguém um vencedor.

Quem sabe um dia nos amemos verdadeiramente. De outra forma. Pois o amor conjugal pode adoecer e ter de partir para que eu não desfaleça também. Ficará um outro amor. Aquele que se compadece da frágil condição humana e reconhece que eu, tu, todos nós habitamos o mesmo mundo onde a perfeição não existe.

Lancemos luz à nossa essência, para que os nocivos hábitos do ego experimentem a transmutação.




Ada Abaé

no livro « pássaros em viagem »


segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Sem punição


Queremos possuir tudo;
possuir o desconhecido bem vestido que passa,
para possuirmos a vida dele.

Possuir a bela mulher modelo,
para possuirmos as suas linhas perfeitas.
Corremos à pressa às lojas,
para comprarmos e possuir o shampoo ou o creme,
que como milagre, em poucos dias,
nos transformarão iguais a quem foi pago
para nos induzir a possuir.

Queremos possuir as lojas de roupa,
para as trazer para casa.
É necessário possuir para nos sentirmos importantes,
e acabamos envergonhados do que temos.
Por vergonha, continuamos a correr em busca da posse,
e acabamos por aprender a roubar
sem o perigo de sermos presos;
não existe prisão para quem rouba a identidade
do pai, da mãe, do irmão...

A modéstia é um suplício,
a nossa alegria é poder dizer que somos filhos
de doutores, nunca de um analfabeto.
O nosso irmão é um príncipe,
porque o nosso equilíbrio está na inveja
que provocamos nos outros.

E tudo isso porque aprendemos
a dar primazia à aparência janota
do boneco que somos.
O boneco que somos
só pode ser dono de um palácio,
só pode ser descendente de um rei e de uma rainha.
Por isso, mãe, pai, irmão, filho, filha
só aparecem onde eu decidir
e só abrem a boca se eu decidir:

Não venham a ser a minha vergonha.
E devoramos o outro,
sem punição...

Ada Abaé

no livro « esculpindo »»


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Contemplação


Na imensidade dos anos que voam,
tão rapidamente,
admiro o sutil encanto
de detalhes requintados,
penetrantes na vida.

Cegos pela busca do êxtase,
presos às aparências ideais,
banhamos os dias
em ilusões decoradas, vazias.

Contemplação que nos cansa
tão rapidamente,
tão rapidamente perde
o seu encanto!

Passivos diante
do esplendor da vida,
ansiosos por novas faíscas
de emoção,
com um poder sedutor,
desviamos nosso olhar
para caminhos desnecessários,
que perpetuam influências desconcertantes
e minam a essência da nossa alma.
Conduz-nos à inferioridade do ser,
torna-nos incapazes de descobrir
o atalho para a felicidade,

onde desabrocha a mais pura
verdade harmoniosa,
que nos oferece alegria
no momento exato
em que a precisamos,
mas que rejeitamos
por ser simples demais.

Antes de contemplarmos
as estrelas no céu,
deixemos que nossos olhos
vejam o que brilha
ao nosso lado!

Ada Abaé

no livro « Véus de água »




segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Sem esquecer

 

Como sei o quanto és intensa, e como os mínimos pormenores são importantes para ti, descrevo-te a cena que me envolve.
    Dormi mal. Nada de estranho nas minhas noites. Enrolados nas voltas que dei na cama andaram os pensamentos. Antes das cinco da manhã resolvi levantar-me. Levantei-me com um pensamento fixo: preciso de escrever à Carmen.
    À primeira vista, como se tivesse que pagar uma dívida. Mas não. Na amizade não existem dívidas.     Existem períodos silenciosos. Silêncios que não matam a amizade. A verdadeira guarda-se, ela própria, num cofre com um código seguro: fidelidade.
    Voltando ao momento real que me envolve: bebo um café, imaginando estar frente a frente contigo, com as minhas mãos nas tuas. Conversamos tão naturalmente como se sempre o tivéssemos feito.
    Quanto mais avanço na idade, maior é a certeza do que e de quem foi realmente importante para mim, e do que se torna inesquecível. Caminham comigo, diariamente, embora nem sempre com a mesma densidade, os tesouros que fui armazenando.
    Sim, porque feridas, embora fiquem as cicatrizes, não as guardo na sala dos tesouros. Estão noutro lugar: no meu dicionário pessoal. Dicionário importantíssimo! Indispensável!
    Convém retornar a “embora nem sempre na mesma densidade”, pois ambas sabemos que as memórias oscilam consoante o momento e o nosso estado de espírito.
    Guardo com muita ternura os programas da rádio, tardes que entravam pela noite dentro. Foram momentos de interação muito ricos. Mas, para além da rádio, existiram as nossas mensagens. A tua disposição para ler os meus contos. A única leitora que tive durante muito tempo. Depois ganhei uma outra: Irene Coimbra.
    Ainda assim, apenas com duas leitoras continuo a escrever. A escrita faz parte das minhas células. Se passar mais do que um dia sem o fazer, deixo de viver. Não sofro por não ter leitores. Nem todos usufruem do privilégio de ter leitoras tão atentas.
    Para mim, eras suficiente. Transmitias-me coragem para continuar.
    Os teus extensos e pormenorizados comentários, que ainda hoje guardo, e que serão integrados no livro, esses, sim, são tesouros valiosos.
    Não, Carmen, ainda não os publiquei.
    Perguntaste-me várias vezes:
     — Para quando?
    No próximo ano. Com toda a certeza ou, melhor, com a certeza que nos é permitida como seres humanos.
    Voltando à nossa mesa de café, ainda mãos nas mãos: senti daqui, bem longe, a tua dor quando perdeste a tua mãe; o modo carinhoso como cuidaste do teu pai, o que me inspirou a escrever alguns contos.
    É impossível, apenas em algumas linhas, descrever todos os sentimentos. Sei que somos diferentes, mas a amizade e o amor são um universo onde as diferenças existem para enriquecer as relações.
    Quero dizer-te que te admiro, que és uma mulher inteligente, com quem sempre gostei de “conversar”.
    Quem sabe, talvez um dia tenha o prazer de te abraçar e tornar real este café imaginário.


Ada Abaé


domingo, 19 de outubro de 2025

Distância, sem ausência

 

Minha amiga

    Como sempre, hoje pensei em ti.
    Mais do que em qualquer outro dia. Depois das quatro da tarde, quando fui para a cozinha, pensei ainda mais. Não sei bem porquê.
    Enquanto descascava os inhames e as cenouras para preparar a sopa, imaginei-nos sentadas a saborear o creme quentinho e delicioso. Não nos faltaria assunto.
    Na nossa história vivem infinitas horas de diálogos, reflexões e desabafos. 
    Quando a distância se estendia por dias, era ao telefone que acalmávamos a saudade. À noite, depois dos meus filhos adormecerem, falávamos sem parar.
    Quantas caminhadas fizemos juntas, sem nos cansarmos e sem contar os quilómetros, nem reparar na condição das estradas. Lembro-me bem dos teus sorrisos para os meus filhos, ainda tão pequeninos, mesmo quando faziam diabruras.
    O curioso é que não consigo lembrar-me do momento exato em que nos conhecemos, nem de como a nossa amizade se tornou tão forte. Não me lembro da primeira vez que entrei na tua casa, nem tu na minha. Tudo parece ter existido desde sempre. É algo maior, inexplicável, como se pertencêssemos a um só espírito.
    Cuidaste de mim. Ficaste ao meu lado por longos períodos.
    Aos olhos de outros, estas linhas podem não passar de um texto, mas carregam o amor que sinto.— aquele que se sente sem razão. Amor que não se apaga com a distância. Na nossa distância, não há ausência. Diariamente, abraço-te e converso contigo.
    Vejo-te agora, deitada no teu quarto, a aguentar dores que ninguém deveria suportar. Gostaria de poder aliviar o teu sofrimento, tornar tudo mais leve.
    Quando passeio por aqui, imagino-te ao meu lado. Sorrimos com os esquilos brincalhões, admiramos os gansos no lago e sentimos a força silenciosa das árvores do bosque.
Esta carta… (Ainda existem cartas hoje em dia? As pessoas escrevem cartas? As pessoas leem cartas?) Não importa.
    Esta carta, que senti tanta necessidade de escrever, é o abraço que quero dar-te a cada instante. É também a oração que quero fazer a Deus: por ti, por mim, pela tua mãe, pela humanidade. Que o Grande Espírito nos acompanhe — a nós, que tantas vezes nos julgamos poderosos e carregamos um mal aparentemente incurável: superioridade.
    Preciso também de dizer-te que, nos momentos mais difíceis, estiveste sempre presente — muito mais do que eu. Acompanhaste-me no funeral da minha avó. Eu, sempre tão ocupada, não estive presente no funeral do teu pai. E agora, além dos teus problemas de saúde, enfrentas a doença da tua mãe. Eu, tão distante, sofro, acredita, sofro muito.
    Para não te cansar, termino por aqui. Quando puderes, diz algo. Um simples Emoji é suficiente, se não tiveres coragem de escrever.
    Escreverei mais. Esta necessidade de escrever-te não se contenta com uma única carta.
    Quero dizer-te — e é preciso dizê-lo enquanto estamos vivas — que te amo, minha amiga. Tu és a irmã que tive a liberdade de escolher.

Ada Abaé


Efeito


Há um vazio na imitação,
na oca existência de seguir as regras à risca,
e no submisso gesto de baixar a cabeça à resposta:
quando aqui cheguei, o mundo já era assim...

Há um riso de triunfo na criança
que desmancha o brinquedo oferecido
e constrói aquele que se molda aos seus sonhos.

Ada Abaé

no livro « esculpindo »


sábado, 18 de outubro de 2025

Mexericos

 



Por que associamos o feminino
quando buscamos encontrar os mestres
dos mexericos?
Quem lança odor sobre um jardim perfumado?
Homem ou mulher?
— O malformado.
Quem se alimenta de sangue alheio?
Homem ou mulher?
— Quem na língua não tem freio.

Não vi apenas mulheres ou homens
envolvidos em mexericos,
mas seres humanos mexeriqueiros,
perdidos em intrigas.
O mexerico cria um lamaçal
onde se atola quem não o souber evitar.

Que árduo trabalho se sujeita o ser humano
na ânsia de possuir a vida do outro,
esquecendo que, no fundo, todos são
contribuintes para o caos das histórias alheias.


Ada Abaé

no livro « esculpindo »

Necessário acordar

 
Na descoberta lenta que venho fazendo de mim,
encontrei grandes obstáculos ao sonho.
Ainda que me chamem de sonhadora,
não passo de uma construtora de pesadelos,
por pensar que os meus sonhos são impossíveis.

Um dia será necessário acordar.
Não como acordo todas as manhãs,
mas acordar para aprender a sonhar
e esmerar-me na arte de os tornar realidade.

As portas dos horizontes enferrujaram tanto
que, apenas na lucidez do sonho, vive
a força para as abrir.
Ada Abaé

no livro « esculpindo »

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Fragilidades



Abrigada dos passos circulares do mundo,
escondo-me no pequeno círculo da minha casa
que construí dentro da casa de todos,
tentando amenizar a minha pequenez.
O medo tento lançar na pintura da porta;
na esperança de acalmar minhas fragilidades.

Ainda assim, em noites longas,
sinto a presença importuna
dos rostos das feras que vigiam,
comandando o som de cada pedra
das paredes que dormem ao relento.

Ada Abaé

no livro « esculpindo »

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Sessenta cêntimos

 
Calcei as botas
e vesti o casaco.

Estes dois acessórios
disfarçavam o confortável,
mas velho, fato de treino.

Desci à garagem,
entrei no carro
e, tornando a enfrentar o forte nevão,
conduzi rumo ao supermercado.

Na hora do pagamento,
hesitei entre as duas caixas abertas.
Escolhi aquela onde o cliente tinha menos compras.

Erro!

A senhora trazia uns folhetos
que lhe ofereciam um desconto.

Insatisfeita com o trabalho da empregada,
exigiu que chamasse o gerente.

O gerente veio
e resolveu o caso:
pagou à senhora
os sessenta cêntimos que lhe eram devidos.

Ela dirigiu um sorriso vencedor
à pobre empregada,
cujo problema estava à vista de qualquer um:
não conseguia ler letras muito pequenas.

Por sessenta cêntimos,
a senhora criou uma fila
onde permaneci por vinte e cinco minutos.

Ao chegar à rua,
elevei o rosto
e recebi os flocos de neve com um sorriso.

Após a cena da senhora dos sessenta cêntimos,
a mesma paisagem que antes me aborrecia
passou a ser um bálsamo.

Num mundo cinzento,
muita coisa se passa…
Entre elas,
sessenta cêntimos
causando uma fila de espera.

Imaginei a senhora
correndo para o sofá,
monopolizando o telefone e,
durante uma hora,
contando a uma amiga:

— Eu cá não sou de me deixar enganar.
Dinheiro é dinheiro.
O seu a seu dono.

Imaginei as estrelas escondidas,
indiferentes,
simplesmente sendo luz,
alheias a todas as cenas humanas,
conscientes de que tudo é temporário
e que a nossa realidade é criada
pelas coisas que valorizamos.


Ada Abaé

 no livro « esculpindo »


Promessas

 
Escondidos pelos pinheiros,
gravámos juramentos.

Aves, soltámo-nos.
Aos corpos virgens
doámos o primeiro perfume da vida.

Descobrimo-nos em mergulhos,
aventura que apenas Deus viu
quando o seu corpo inexperiente
a minha inexperiência possuiu.

E eu vi, no canto da sua boca,
a vontade louca de devorar
o fogo quente do meu ventre,
chama ondulante sob a pele,
queimando suavemente.

Paixão sem rubor,
inesquecível sabor
de fruta recém-colhida,
doce e avassalador.

Momentos e promessas
de um primeiro amor.

Escondidos pelos pinheiros,
gravámos juramentos,
momento eterno
sem arrependimentos.

Aves, esculpindo a liberdade…


Ada Abaé

no livro « esculpindo »

Entre Corpo, Alma e Espírito

   

 
Não sei se a maioria sabe para o que nasceu. Eu sei que nasci para escrever, mas ainda assim fiz tantas outras coisas. Deixei-me absorver pelo mundo sem nunca a ele ter pertencido.
Hoje, bem mais velha, deitada na cama que eu mesma fiz, escrevo sem saber exatamente sobre o quê. Não posso continuar sem voltar à palavra “velha”, porque velha não me sinto. O corpo reclama um pouco, mas o espírito ignora: ele não conhece a passagem do tempo, não se dobra a ele.
    É estranho. Sou dividida e simultaneamente recomposta, como um puzzle feito de identidades diferentes. Isso dá-me uma força singular, uma certeza íntima de que o mundo, aqui, nada pode.
    A alma é mais maleável. Ela sabe chorar, conhece a desilusão e fabrica medos. A mente, por sua vez, pode ser traiçoeira: confunde o que serve e o que não serve, cria rotinas e prende-se a vícios. Não distingue quando a rotina traz ordem ou quando nos cega. É o jogo onde tudo parece real, normal, e que nos afasta de nós mesmos. E, curiosamente, achamos graça. Ou não.
Hábitos desequilibrados entregam-nos a rotinas que a nenhum outro animal lembrariam.
    E volto à palavra “velha”. O que será, afinal, a velhice? Este rosto enrugado que sorri para o espelho e talvez me pergunte:
    – Não me queres reparar?
    Existe em mim um contrassenso: embora o espírito seja jovial, não está interessado em recuperar o rosto envelhecido. E por que deveria importar-se? Quando a matéria se for, ficará livre para viajar.
    A alma deseja uma vida longa. O espírito, não sei quanto interesse tem neste mundo denso.
    A alma é aquariana, rebelde, teimosa, destemida, sonhadora, cheia de amor para dar, mas também desligada. A mente rege-se um pouco por ela. Torna-se exigente, complacente ou preguiçosa, conforme o que a alma pedir. Cria o seu reino com aquilo que lhe der: se a levo a passear, amanhã quererá passear; se alimento o corpo a toda a hora, a toda a hora desejará comer.
    Lembro-me bem: durante muitos anos ansiava pelo fim do trabalho. Que maravilha quando chegava a hora da recompensa! Conhecia cada passo até à loja. Que satisfação! A primeira mordida, a boca cheia de chocolate a derreter até à garganta. Aquilo sim era prazer. Era vida.
    A mente ativava as papilas gustativas e os olhos procuravam, ávidos, a prateleira dos doces. E o corpo, coitado, sem saber o preço que pagaria, obedecia. Era tão bom... que hoje não suporto sequer um pedacinho de chocolate. Adoece-me imediatamente.
    O corpo é a parte de mim com menos autonomia. Ele fala, mas levei muitos anos para o compreender – e ainda assim, apenas um pouco.
    Pois continuo a ter mente e alma. E o espírito? Mantém-se longe de toda esta confusão.

Daí esta insónia perpétua.





quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Aprendemos, aceitamos e devoramo-nos



Aprendemos a chamar à resignação de amor
ao ódio de paixão.
Polimo-nos até sufocar nas aparências,
e os senhores poderosos,
ainda que mundanos,
exigem-nos mansidão e silêncio às nossas questões.
 
E o mais grave, o mais grave, é que, mesmo em desespero,
acabamos todos por viver no reflexo de cada um,
como se fôssemos modelos de trapo nas mãos de costureiros
que, zombando da nossa feiura,
escondem os defeitos dos seus pontos.
 
Vivemos exilados na máquina infernal do mundo
e sorrimos...
Sorrimos como patetas que lutam por um futuro
que nos prende
mais e mais.
 
Somos mercadoria enviada a leilão, sem nos importarmos
com a exata proporção do que somos.
 
Quase nada é mais importante do que o fulgor do imposto,
que nem sempre nos abriga em tempos frágeis,
mas que não falta para comprar armas
para matar o nosso semelhante;
quem sabe, até os próprios filhos.
 
Mas o mundo esconde muitas guerras.
Vivemos em constante rutura com a nossa verdade
e inventamos histórias que nos impossibilitam
a verdadeira comunicação.
 
Aprendemos, aceitamos e devoramo-nos.

Ada Abaé

« no livro esculpindo »