Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta crónicas

Manhã diferente

Imagem
escrito: segunda-feira, 21 de junho de 2010           Às 5h30 da manhã, aqui em Edmonton, Canadá, sem conhecer nenhuma regra de futebol, assisto ao jogo de futebol entre Portugal e Coreia. Mas tenho motivos para tal.      Será que assisto ao jogo porque gosto de futebol? Não tanto assim! Por concordar com algumas irregularidades que contornam este desporto, que movimenta grandes quantias de dinheiro e grandes massas humanas? Não!      Porque a minha vida gira em torno das pessoas que amo. Então, é o apego às pessoas que são a minha vida, que me faz estar aqui neste sofá, tentando ver os golos que marcam (e, neste momento, Portugal já marcou 4 golos e Hugo Almeida acabou de levar um cartão amarelo, não sei se justo ou não; deixo isso para os entendidos em futebol).      O meu interesse é apenas o de informar o meu marido, que saiu de casa para trabalhar precisamente no inicío do jogo, e de ir trocando impressões c...

Profissionalismo para além da aparência ou idade

Imagem
    A um motorista desconhecido 8h da manhã. Vesti o casaco, enrolei o cachecol em volta do pescoço, coloquei a mala no ombro e abri a porta. Ao chegar à rua, inspirei o ar gelado. Realmente gelado. Era o primeiro dia de primavera. Uma primavera preguiçosa; a neve continuava a cair. Tudo era branco, branco, branco. Com os meus olhos limitados ao branco, dirigi-me com cuidado, caminhando sobre o gelo que cobria o chão, até à paragem do autocarro. Pouco depois ele chegou, parou e entrei. Ao entrar, aqueceu-me a alma,  porque o corpo levaria um pouco mais de tempo, um grande sorriso e um entusiasmado: — Bom dia! Como está? — cumprimentou o motorista. Respondi também com um sorriso e um muito obrigado. O afável cumprimento do motorista não foi dirigido apenas a mim, mas a todos os passageiros que iam entrando e saindo. Foi como um raio quente num lugar tão gelado! Esta simpatia faz parte de um profissionalismo que tenho o prazer de encontrar, não apenas nos autocarros, mas no...

Olha, tens que ter paciência!

Imagem
Hoje coloco aqui um texto que escrevi em 9 de fevereiro de 2011. Mas quão desatualizado estará ele? * Quando as quadras de Antonio Aleixo se enquadram: Quantas sedas que aí vão, Quantos brancos colarinhos, São pedacinhos de pão Roubados aos pobrezinhos! A ninguém faltava o pão, Se este dever se cumprisse: - Ganharmos em relação Com o que se produzisse.           Gostaria de escrever sempre palavras bonitas, mas a realidade de algumas pessoas inquieta-me demais para poder ficar serena.       Ontem, ao falar com alguém de Portugal, escutei o cansaço, a desilusão, a incerteza e o desespero de um ser humano que sabe que está a ser usado e sente que tem de ficar calado.       Recebia o ordenado mínimo, tinha um dia de folga por semana e fazia horas extras que, apesar de não serem muito bem pagas, sempre ajudavam um pouco. Agora, recebe o ordenado mínimo, faz dois horários por dia porque os seis empregados da empresa foram ...

A Outra Face de Jibacoa

Imagem
  Para além da areia branca e das águas cristalinas; a outra face de Jibacoa.      Todos os dias, aproximava-se a mesma menina. Pele e cabelos desbotados pela vida ao ar livre. Quer fosse na areia ou dentro do mar, lá vinha ela, com o olhar vivo e a mesma frase nos lábios:      — Eu não tenho casa — dizia, em espanhol, enquanto estendia a mão. — Me chamo Camila. E tu? — perguntava-me.      No olhar, que deveria ser inocente, vivia alguém precocemente adulto e manipulador. Construído, estava claro, à força pelos próprios familiares. Ao longe, distinguiam-se duas figuras adultas: os pais, rodeados por vários filhos. Incrivelmente quietos e atentos. Como se aguardassem algo, enquanto a menina se lançava, sozinha, às mãos de desconhecidos.      Se ganhasse, não importando o quê, logo corriam os outros, surgindo das dunas. Aos bandos. Muitos olhos. Esgazeados. Ansiosos, mas também astutos. Todos os dias, durante duas s...

RIDE THE WIND RANCH

Imagem
       A duzentos e dezoito quilómetros de Edmonton, no centro-oeste de Alberta, Canadá, na confluência dos rios Clearwater e North Saskatchewan e com uma longa história que vem desde o século XVIII, fica situada a pequena cidade Rocky Mountain House.      Ela serve de marco na mudança, não apenas da estrada, mas de toda a paisagem que nos conduz em direção ao Ride the Wind Ranch.      Funciona como um filtro, esvaziando-nos da poluição sonora e de toda a correria do dia a dia, a estrada de gravilha que rompe léguas e léguas da frondosa e extensa floresta. A PRIMEIRA VISITA AO RANCHO E O CAIR DA NOITE Vinte e um quilómetros depois de Rocky Mountain House, surgiu a indicação: "Ride the Wind Ranch".  Quanta vida palpitava, protegida por toda aquela extensão de árvores! Do lado esquerdo, os grous-canadianos conviviam em paz com os bois. Do lado direito, dois coelhinhos brincavam livremente.     Paramos ao lado da casa. No cim...

Silêncio que Restaura

  Depois da nossa última discussão, calei-me. Reparaste que me calei? Não penses que foi fácil. Na última noite em que discutimos, deitámo-nos de costas voltadas um para o outro. Eu já tinha decidido fechar os olhos e dormir, mas tu, pelo resultado, não te deitaste com o mesmo objetivo. Falaste, falaste noite inteira. Levantaste-te algumas vezes, sempre a falar. Que vontade eu tinha de levantar-me também e rebater cada palavra tua, mas limitei-me a imaginar a tua figura inquieta, invasora do sossego do quarto. Não foi fácil, não! A força com que cerrava a boca revolvia-me as entranhas tão intensamente que, quatro dias depois, ainda sentia os maxilares doridos… o corpo inteiro a pedir descanso. As tuas palavras, a minha mente guardou-as todas, como se as tivesse escrito numa folha de papel. As poucas horas que dormimos não apagaram o desconforto existente entre nós e, apesar de tentarmos falar coisas triviais, elas ainda passam diante dos nossos olhos como um filme que deixa...

Entre Corpo, Alma e Espírito

            Não sei se a maioria sabe para o que nasceu. Eu sei que nasci para escrever, mas ainda assim fiz tantas outras coisas. Deixei-me absorver pelo mundo sem nunca a ele ter pertencido. Hoje, bem mais velha, deitada na cama que eu mesma fiz, escrevo sem saber exatamente sobre o quê. Não posso continuar sem voltar à palavra “velha”, porque velha não me sinto. O corpo reclama um pouco, mas o espírito ignora: ele não conhece a passagem do tempo, não se dobra a ele.      É estranho. Sou dividida e simultaneamente recomposta, como um puzzle feito de identidades diferentes. Isso dá-me uma força singular, uma certeza íntima de que o mundo, aqui, nada pode.      A alma é mais maleável. Ela sabe chorar, conhece a desilusão e fabrica medos. A mente, por sua vez, pode ser traiçoeira: confunde o que serve e o que não serve, cria rotinas e prende-se a vícios. Não distingue quando a rotina traz ordem ou quando nos cega. É o jogo...