O fanfarrão

 

    Um jovem professor de inglês, de aparência extrovertida e sorriso constante. Bem vestido, com um ar vaidoso. Alto, magro e um pouco musculado. Daqueles que frequentam um ginásio porque é moda. Um fanfarrão!
    — Posso? — perguntou, sorrindo, ao homem que conhecia de vista. Ambos frequentavam o mesmo café e quase sempre à mesma hora.
    — Claro! Já que puxaste a cadeira, senta-te à vontade — respondeu Alberto. Rapaz de trinta e dois anos, estatura média e um ar de quem é apenas o que é.
    — Estás a beber café simples? Eu quero um café com chocolate. É uma bebida com classe. Aqui entre nós, as mulheres gostam quando me veem a beber café com chocolate — disse Cristiano. Ria. Por vezes, dava a sensação de que o fazia não por vontade própria, mas para mostrar os dentes extremamente brancos.

    O outro não respondeu. Tagarela como era, o jovem professor continuou:
    — Na empresa da minha mãe, há corrupção. É uma empresa de donativos, e o dinheiro das doações está a ser desviado pela dirigente. A minha mãe quer que eu telefone de uma cabine e faça uma denúncia.
    — Por que não o faz ela? — perguntou Alberto, franzindo a testa numa expressão de dúvida.
    — Tem de ser uma voz de homem. Para disfarçar, estás a ver... Para homem, estou cá eu — disse, rindo e fazendo uma breve vénia com a mão direita no ar.
    — E o teu pai, o que diz sobre isso?
    — Ele diz que corro perigo se vierem a descobrir que fui eu — respondeu Cristiano, dedilhando o tampo da mesa, como se marcasse uma música. Os dedos brancos e compridos denunciavam um nervosismo estudado.
    — Podes dizer que não à tua mãe. Acho que isso é um problema de quem lá trabalha — retorquiu Alberto, analisando, disfarçadamente, a dança dos dedos do outro.
    — Mas, se eu fizer a vontade à minha mãe, ela oferece-me uma casa.
    — Como assim?
    — Sim, ela tem várias casas na China. Uma herança de família.
    — Hum! Situação difícil.

    — Tenho um fantasma em casa — declarou Cristiano, mudando de assunto.
    — Ilusão tua!
    — Ele troca o lugar dos objetos. De vez em quando sinto um ar gelado pela casa.
    — Que medo! Quem pensas que será?
    — Não sei. Tenho umas peças antigas. Muito valiosas, sabes? Para mim, decoração resume-se a coisas caras. Acho que é um soldado romano. Tenho um capacete que pertenceu a um comandante romano e, por quatro vezes, quase me acertou na cabeça. Ele está por cima do sofá da sala. Eu, sossegadinho a ver televisão, e ele, cá pum… pás…
    — Muda-o de lugar.
    — Gosto do lugar onde está. Está bem visível para quem entra em casa. Que hei de fazer?
    — Vende a casa.
    — A casa é da minha irmã.
    — Pensei que fosse tua. Pelo modo como te ouço falar dela… e por certas conversas que já apanhei… sempre pensei que eras o dono da casa.

    — Olha, uma noite ia a conduzir na estrada que vai para Banff, depois de Calgary… de repente vi um anão à beira da estrada. Sério! Vestido com a bandeira americana! Bracejava, bracejava. Parecia querer que eu parasse. Como estava cansado, parei e dormi duas horas. Depois segui viagem e tudo correu bem.
    — Ah! — balbuciou o outro, sem tempo para se refazer da mudança de assunto.

    — Sou perseguido por um homem. Ele pensa que sou amante da mulher dele.
    — Ah! És? — exclamou Alberto, tentando acompanhar o ritmo de aventuras de Cristiano.
    — Nada sério. Apenas, estás a ver, elas atiram-se a mim e eu não digo que não.
    — Sorte a tua. Como se chama ela?
    — Cristina.
    — Loura ou morena?
    — Morena. Mora no sul da cidade. Por vezes ela vem até ao norte. Estás a perceber, não estás?
    — Perfeitamente, perfeitamente. Como te persegue esse homem? Já lhe viste a cara?
    — Não, não! Manda-me mensagens anónimas. Ameaças. Nem sei como é que ele conseguiu o meu número. Ela diz que tem sempre cuidado. Um dia, com tempo, conto-te as histórias que me acontecem.     Nem vais acreditar!
    — Vou, pois!
    — Sério? És dos meus. Certas pessoas pensam que estou sempre a inventar.

    — Também tenho uma história para contar. Já que gostas de histórias, queres escutar a minha?
    — Força!
    — Mas tens de acreditar. Promete.
    — Prometo.
    — Sou o fantasma que te persegue.

    O jovem professor olhou-o atónito. Depois, desatou a rir:
    — Essa foi uma piada. És engraçado.
    — Não acreditas? Queres ver que não tens nenhum fantasma em casa? Tenho ainda outra história.
    — Mas desta vez vais falar a verdade.
    — Vou. E tu vais acreditar.
    — Conta lá, ó brincalhão.

    — Olha, brincalhão, sou o marido da tua amante. O fantasma que te persegue, não pela casa, mas pelo telemóvel.
    — Não… não pode ser — respondeu o jovem fanfarrão. O pescoço encolheu-se-lhe entre os ombros. Fora-se o vigor e a soberba postura.
    — Pareces perdido! A Cristina, que mora no sul e que é morena, não existe?
    — Existe, claro que existe! Pensas que sou algum gabarola ou quê?
    — Pronto, assim fico mais descansado. Não quero ser injusto, nem quero bater no tipo errado.

    No dia seguinte, na escola, todos queriam saber o que tinha acontecido.
    — Nem imaginam! Fui assaltado. Deixou-me a cara negra, mas ele ficou pior. Parti-lhe um braço, chamei a polícia. Foi preso!
    — Olha, vou beber um café onde costumas ir. Acompanhas-me? — perguntou-lhe um colega.
    — Ah, não! Deixei de gostar do serviço desse café. A última vez que lá bebi café, sabes o que vinha na chávena?
    Desfiou mais uma história. Histórias! Viviam em ebulição no seu sangue. Histórias apenas sobre mulheres é que nunca mais contaria. Não queria voltar a levar um murro por algo que não tinha feito. 

    Que coincidências estranhas tem a vida!
    Porque tinha de existir uma Cristina morena, que vivia no sul da cidade.

Ada Abaé


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