Talvez excesso

 

    Muitos dias sem abrir este caderno. Mas tenho aberto outros.

    Depois da publicação de Pássaros em viagem, iniciei a organização e revisão de contos, crónicas e cartas para Entre diferenças. Quando esse trabalho estiver concluído, regressarei a Centúria, que, apesar de muito adiantado, ainda tem um longo caminho a percorrer. Entretanto, nasceu um romance, Fúria. E permanece este diário, ao qual volto sempre que sinto necessidade de ordenar os pensamentos.

    Para além da escrita, existe a administração do blogue Ponto & Vírgula, do site Aquífero, do meu blogue pessoal e dos dois canais do YouTube. A tudo isto somam-se as tarefas diárias. Talvez seja essa abundância de projetos que me faz sentir tão confusa. Mas não é a única razão.

    Uma enxurrada diária de notícias disputa a nossa atenção. Raramente temos a coragem de desligar. O mundo corre a uma velocidade difícil de acompanhar e nós, talvez por vaidade, acreditamos que conseguimos absorver tudo.

    Há cerca de uma hora, vi um vídeo no Facebook. Uma jornalista questionava um político sobre declarações e cartazes que já tinham sido amplamente discutidos. Em vez de responder diretamente, desviou a conversa, acusou a jornalista e desvalorizou os factos. Fechei o vídeo.

    Talvez uma das maiores fragilidades humanas seja a dificuldade em assumir o que se diz e o que se faz. É mais fácil responsabilizar os outros, insinuar perseguições ou levantar a voz do que admitir um erro ou sustentar uma posição com serenidade. Lembrei-me das crianças que, quando confrontadas, respondem: «Não fui eu.» Crescemos, mas nem sempre abandonamos esse impulso.

    No meio de tanto ruído, preservar a capacidade de pensar tornou-se um exercício diário.

3 de fevereiro- 2026

Ada Abaé

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