O regresso ao caderno

 

    Hesitação é uma das armas que a nossa mente nos aponta para que adiemos uma ação, uma mudança.
    Com quase sessenta e cinco anos, continuo a sentir que são inúmeras as mudanças que desejo fazer. Hoje refiro-me especificamente ao ato de escrever à mão, num caderno. Sem internet, longe de qualquer influência das redes sociais que tanto nos distraem.
    E por quê? Falta de inspiração, dificuldade de concentração e, consequentemente, procrastinação.
    Como já referi inúmeras vezes, escrever para mim é vida. Por muito ocupados que sejam os meus dias, se não escrever, sinto-me a boiar num vazio que me machuca.
    Talvez, para concretizar um objetivo, seja importante não esquecer os passos dados.
    Ontem, enquanto tomava o pequeno-almoço, pensei:
    — É hoje. Hoje vou comprar um caderno e reiniciar a escrita manual.
    Acabei de comer, lavei a louça, dirigi-me ao closet e escolhi a roupa (sou muito rápida nisso), tomei um duche, espalhei um óleo no rosto, penteei-me e sorri para mim. O espelho devolveu-me o sorriso.
    — Gosto de ti — murmurei.
    Quão bem nos podemos fazer.
    Depois, equipei-me para enfrentar o frio: botas grossas, casaco bem quente, luvas, cachecol e capucho de lã.
    Lá fui eu. Tentando não escorregar no gelo, cheguei ao carro. Estava bem gelado. Aguardei um pouco até o motor aquecer e conduzi devagar até à loja.
    Após analisar vários cadernos diferentes, escolhi este, onde neste momento estou a escrever.
    Por que é tão importante não esquecer os passos que damos até à concretização do que desejamos?   
    Recordar todos os passos ajuda-nos a não desistir. Raramente, quando fraquejamos, pensamos no caminho já percorrido, no esforço investido.
    Esquecê-los enfraquece a vontade; recordá-los devolve-nos a força para concluir.

13 de janeiro-2026
Ada Abaé


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