A memória da mão

 

    Após a compra do caderno, levei alguns dias a abri-lo e a aventurar-me por ele. Por muitos anos habituei-me a escrever apenas no computador.
    Senti-me um pouco triste ao aperceber-me de que quase já não sabia escrever à mão. A mão movia a caneta sem acompanhar o ritmo do pensamento. Parecia correr pelo caderno, deixando simples riscos apressados. Foi difícil o acerto para que as letras, uma a uma, se desenhassem. A minha caligrafia nunca foi muito bonita, mas passou a ser muito pior. Quase irreconhecível até para mim.
    Ainda que frustrada com as primeiras frases, lembrei-me de todo o percurso desde a decisão de comprar o caderno até à compra concreta. E insisti.
    Por que hesitei tanto em voltar à escrita à mão? Pensava que iria perder muito tempo. No entanto, apercebi-me do quanto isso é benéfico. Enquanto escrevo no caderno, a mão habitua-se ao comando de uma consciência diferente. O cérebro parece funcionar em pleno. Quando pouso a caneta e fecho o caderno, sinto-me descontraída, tranquila.
    Não há que temer errar ou riscar o caderno. Ele é para ser usado.
    É verdade que é necessário passar para o computador. Por que não aproveitar esse momento para fazer uma primeira revisão?



20 de janeiro-2026


Ada Abaé

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