quarta-feira, 29 de abril de 2026

Viagem mágica

 


O sol parecia um girassol que, cansado
de viver na terra, fugira para o céu,
as nuvens pareciam bordadas de dourado
pelo sol que parecia um girassol.

O burrinho, atento ao caminho,
subia o trilho de pedra e terra,
balançando as cangalhas devagarinho,
subindo o trilho de pedra até ao cimo da serra.

O meu braço, como um galho meio bambo,
caía das cangalhas que balançavam devagarinho;
sentia o beijo das ervas que, beijadas pelas libelinhas,
ondulavam fazendo vénia ao burrinho.

Pendurando a cabeça, quase fazendo o pino,
via o mundo ao contrário,
até a D. Josefina,
no seu xaile preto dobrado em triângulo,
benzendo-se, dizia:
— Cruz credo, Sr. Francisco, olhe a sua menina!

O burro de orelhas grandes e crina pequena
deitava de soslaio um olhar vivaço,
zurrando para o cão da D. Josefina,
que, na tarde amena,
ladrava ao cordeiro que lhe respondia balindo.
Horas depois, descendo a serra ao teu lado,
de mãos dadas, ouvia-te cantar,
enquanto guiavas o burrinho de lenha carregado

sobre as cangalhas que balançavam devagar.
Na água do rio que corria tão fresquinha,
alimentando os caniços de vestido verde folhudo,
refletia-se a imagem de uma menina
e a de um deus com poder para tudo.

Ada Abaé


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