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Poderoso gigante

Dentro de mim há um gigante, tão grande e ninguém o vê! Por vezes esconde-se, por vezes cresce, cresce... Tantas são as vezes que se ergue e arrebata a angústia, destruindo-a num gesto tão poderoso quanto ele. Com a sua mão enorme, esmaga infinitos pesadelos. Só pode mesmo ser um gigante este poderoso poder de vencer as poderosas pedras, as desmedidas barreiras que surgem das avalanches traiçoeiras e inesperadas da vida! E quando eu penso que o meu escudo protetor submergiu comigo, emerge nesta forma de gigante que ninguém vê, nem, por vezes, eu, mas que nunca deixou de estar... dentro de mim! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

A tarde vai a meio

  A tarde vai a meio e chove, meu amor. As árvores e as flores deixam-se regar pelas gotas doces que caem do céu. É como quando eu e tu passeamos pelos caminhos onde um oculto esplendor brilha num olhar que é apenas meu e teu. A tarde vai a meio e chove, meu amor. Tudo fala de tranquilidade, onde o amanhã será apenas o amanhã, e o hoje a certeza de que, ontem, um sorriso, alheio à dor, se entrelaçou na tua e na minha mão, falando serenamente de amor! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Lutas invisíveis

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      A casa cheirava a água a ferver. Tem cheiro, a água quando ferve? Neste caso, sim. As bolhas libertavam o cheiro da pressa. Saltavam, ansiosas por transformar as batatas em puré. Entre os dedos da minha mão esquerda, um pobre tubérculo gemia, enquanto a direita manejava a faca e o atingia com duros cortes.      A poesia... ah! A poesia esperava por mim. «Que espere por melhores horas», pensei. Naquele momento, a poesia era outra: a dos tachos, na luta contra o meu cansaço. Mais um pouco, o derrotado tubérculo seria um vaidoso puré de batata nos pratos, que já esperavam na mesa.      Os convidados estavam ausentes. Encontravam-se na sala ao lado, mas ausentes. Não demonstravam nem um pingo de curiosidade. Se assim fosse, teriam movido a cabeça enquanto eu desabafava o meu cansaço, batendo com mais força do que o necessário com a colher de pau nos ombros do tacho, que suava a bom suar. E o pobre pano de cozinha? Convertido em rodilha, exp...

Vestígios

Sinto na tua camisa lavada, neste tecido que abraço a tua pele marcada, do teu corpo que adormeceu vencido pelo cansaço, descansando sobre o meu. Lanço o olhar àquela hora em que o teu respirar se perdeu no meu peito que agora respira triste sem o teu. E sobre este tecido que aperto cai uma lágrima cansada como um grito que cai certo na tua camisa lavada! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack  | Internet Archive

Aqui

Despeço-me lentamente da noite que se vai; sinto o dia ainda como sombra encantada, e ouço a chuva que mansamente cai, acordando, inconsciente, a casta madrugada. Entre a noite e o dia, a incerteza me enlaça, hora nua, insensível e de rudes melodias, saqueia da minha boca a tal graça que apagaria, da minha alma, as rugas fundas e frias. Talvez eu sorrisse contente após esta noite sempre acordada, se visse o sol nascer no poente e o sentisse, como eu, estrela desorientada. Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Lágrimas

Gotinhas húmidas e transparentes queimam o meu rosto cansado! Mas não são lume! São lágrimas fortes e quentes, são um grito silenciado num silencioso queixume. São um livro fechado tão quase depois de o abrir, são o poema inacabado que a meio quis partir. E nessa lágrima transparente, nesse silencioso queixume, morreu o sorriso inocente numa gotinha quente que queima sem ser lume! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

O corvo e a tempestade

A noite ficou escura e o vento sopra torvo, a chuva bate tão solitária na janela, talvez fuja do agouro do corvo que bate as negras asas atrás dela. Por que chove assim, canta o corvo e sopra o vento, se nem sequer é dezembro, mas sim agosto?! Espreito pela vidraça e vejo o vento violento a fazer girar o corvo que brinca bem-disposto. Murmurei, lenta, alguns ais, sem entender a negrura dos espaços celestiais, para, de seguida, sorrir enternecida ao perceber que, enquanto eu fiquei desorientada, aborrecida por uma tempestade que chegou perdida, o corvo abriu as asas, quis brincar... quis viver! Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack