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Silêncio que Restaura

  Depois da nossa última discussão, calei-me. Reparaste que me calei? Não penses que foi fácil. Na última noite em que discutimos, deitámo-nos de costas voltadas um para o outro. Eu já tinha decidido fechar os olhos e dormir, mas tu, pelo resultado, não te deitaste com o mesmo objetivo. Falaste, falaste noite inteira. Levantaste-te algumas vezes, sempre a falar. Que vontade eu tinha de levantar-me também e rebater cada palavra tua, mas limitei-me a imaginar a tua figura inquieta, invasora do sossego do quarto. Não foi fácil, não! A força com que cerrava a boca revolvia-me as entranhas tão intensamente que, quatro dias depois, ainda sentia os maxilares doridos… o corpo inteiro a pedir descanso. As tuas palavras, a minha mente guardou-as todas, como se as tivesse escrito numa folha de papel. As poucas horas que dormimos não apagaram o desconforto existente entre nós e, apesar de tentarmos falar coisas triviais, elas ainda passam diante dos nossos olhos como um filme que deixa...

Sem punição

Queremos possuir tudo; possuir o desconhecido bem vestido que passa, para possuirmos a vida dele. Possuir a bela mulher modelo, para possuirmos as suas linhas perfeitas. Corremos à pressa às lojas, para comprarmos e possuir o shampoo ou o creme, que como milagre, em poucos dias, nos transformarão iguais a quem foi pago para nos induzir a possuir. Queremos possuir as lojas de roupa, para as trazer para casa. É necessário possuir para nos sentirmos importantes, e acabamos envergonhados do que temos. Por vergonha, continuamos a correr em busca da posse, e acabamos por aprender a roubar sem o perigo de sermos presos; não existe prisão para quem rouba a identidade do pai, da mãe, do irmão... A modéstia é um suplício, a nossa alegria é poder dizer que somos filhos de doutores, nunca de um analfabeto. O nosso irmão é um príncipe, porque o nosso equilíbrio está na inveja que provocamos nos outros. E tudo isso porque aprendemos a dar primazia à aparência janota do boneco que somos. O boneco que...

Maria, tão bela!

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Foi numa tarde quente que sentiu o coração apaixonado e acreditou... De pernas bambas e olhos arregalados, entregou-se, crente de que o amor se abrira como um rio Mãos subtis desordenaram-lhe a pele, e um corcel vigoroso e húmido entranhou-se nela, igual a uma centelha acesa. Ofegante, trincou os lábios enquanto o mel lhe rasgava a selva. Depois da paixão consumada de Maria desonrada mulher imersa na desgraça, ah, Maria, Maria tão bela, perdeu toda a graça! Assim a opinião alheia exclama, indiferente se está a tentar lançar uma pérola à lama. Que estranho encanto sente o homem em provocar, no mais frágil, o pranto. no livro « pássaros em viagem » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Contemplação

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Na imensidade dos anos que voam, tão rapidamente, admiro o sutil encanto de detalhes requintados, penetrantes na vida. Cegos pela busca do êxtase, presos às aparências ideais, banhamos os dias em ilusões decoradas, vazias. Contemplação que nos cansa tão rapidamente, tão rapidamente perde o seu encanto! Passivos diante do esplendor da vida, ansiosos por novas faíscas de emoção, com um poder sedutor, desviamos nosso olhar para caminhos desnecessários, que perpetuam influências desconcertantes e minam a essência da nossa alma. Conduz-nos à inferioridade do ser, torna-nos incapazes de descobrir o atalho para a felicidade, onde desabrocha a mais pura verdade harmoniosa, que nos oferece alegria no momento exato em que a precisamos, mas que rejeitamos por ser simples demais. Antes de contemplarmos as estrelas no céu, deixemos que nossos olhos vejam o que brilha ao nosso lado! no livro « Véus de água » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack

Sem esquecer

  Como sei o quanto és intensa, e como os mínimos pormenores são importantes para ti, descrevo-te a cena que me envolve.      Dormi mal. Nada de estranho nas minhas noites. Enrolados nas voltas que dei na cama andaram os pensamentos. Antes das cinco da manhã resolvi levantar-me. Levantei-me com um pensamento fixo: preciso de escrever à Carmen.      À primeira vista, como se tivesse que pagar uma dívida. Mas não. Na amizade não existem dívidas.      Existem períodos silenciosos. Silêncios que não matam a amizade. A verdadeira guarda-se, ela própria, num cofre com um código seguro: fidelidade.      Voltando ao momento real que me envolve: bebo um café, imaginando estar frente a frente contigo, com as minhas mãos nas tuas. Conversamos tão naturalmente como se sempre o tivéssemos feito.      Quanto mais avanço na idade, maior é a certeza do que e de quem foi realmente importante para mim, e do que se torna inesq...

Distância, sem ausência

  Minha amiga      Como sempre, hoje pensei em ti.      Mais do que em qualquer outro dia. Depois das quatro da tarde, quando fui para a cozinha, pensei ainda mais. Não sei bem porquê.      Enquanto descascava os inhames e as cenouras para preparar a sopa, imaginei-nos sentadas a saborear o creme quentinho e delicioso. Não nos faltaria assunto.      Na nossa história vivem infinitas horas de diálogos, reflexões e desabafos.       Quando a distância se estendia por dias, era ao telefone que acalmávamos a saudade. À noite, depois dos meus filhos adormecerem, falávamos sem parar.      Quantas caminhadas fizemos juntas, sem nos cansarmos e sem contar os quilómetros, nem reparar na condição das estradas. Lembro-me bem dos teus sorrisos para os meus filhos, ainda tão pequeninos, mesmo quando faziam diabruras.      O curioso é que não consigo lembrar-me do momento exato em que nos...

Efeito

Há um vazio na imitação, na oca existência de seguir as regras à risca, e no submisso gesto de baixar a cabeça à resposta: quando aqui cheguei, o mundo já era assim... Há um riso de triunfo na criança que desmancha o brinquedo oferecido e constrói aquele que se molda aos seus sonhos. no livro « esculpindo » Ada Abaé - YouTube | Livros |   Substack