Encontrei-o numa loja. Os seus olhinhos vivos, dançando entre a majestosa plumagem verde e amarela, fixaram os meus. Imploravam por liberdade. Sem hesitar, comprei-o e trouxe-o para casa. Viajou meia hora dentro de uma caixa pequenina. Eu, humana, pretensa sabe-tudo ou dona do que quer que fosse, olhava-o carinhosamente através dos buraquinhos da minúscula caixa. Coitado! Quais aves merecem ser açoitadas pelos limites de uma prisão?
Em casa, passou da pequena caixa para uma linda gaiola. Lindo! Em cima do balcão da cozinha, entre a cozinha e a sala, aquele adorno maravilhoso! João! Batizei-o de João!
Como era delicioso acordar, levantar-me, ir até à gaiola e arregalar a alma com aquela criatura tão bela! No entanto, acompanhava-me o mesmo sentimento que, na loja, me levara a comprá-lo. Não o adquirira eu para o salvar da prisão?
Decidi oferecer-lhe a casa inteira. Tornou-se amigo íntimo de todos os residentes da sua nova morada. Sempre que me via sentada, preparada para escrever, voava até ao meu ombro e fazia dele palco para exibir o seu repertório musical.
Quando chegou a primavera, demonstrou fascínio pelas janelas. Mentira! O que o atraía era o canto dos outros pássaros. Ainda que nos dedicasse grande afeto, maior era o desejo de conhecer o que existia para além das barreiras transparentes. Eu, porque o amava, deixei-o ir. Saltitou um pouco entre as flores do jardim, treinou alguns voos rasteiros e, gradualmente, venceu as alturas. Até se transformar num minúsculo ponto escuro. Durante uns meses, à mesma hora, eu abria-lhe a porta e, após um longo ou curto passeio, ele voltava.
Recordo a última tarde em que o vi voar. Senti no bater das suas asas uma nova felicidade, como se me explicasse: «Se eu não voar, não sou pássaro.» Não voltou mais. Fiquei um pouco triste, até entender que a liberdade que eu lhe oferecia não era a que ele desejava. Como ave, herdara a felicidade e, aproveitando a oportunidade, buscou o seu caminho.
O que julgamos ser a melhor solução para alguém nem sempre é o que ele realmente precisa.
17 de junho de 2013
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