A mentira é um doce nos ouvidos de alguns

 


    — O meu marido, esta noite, ficou doente, e a culpa foi sua. A jovem empregada tremeu diante da acusação.
    — Sim, vocês sabem que o meu marido só pode beber leite com zero por cento de gordura e, ontem, você colocou no café dele um leite mais gordo.
    — Desculpe, mas nós não usamos leite com zero por cento de gordura — respondeu Dora, a empregada, tentando ser honesta.
    — Usam, sim. As suas colegas têm sempre esse cuidado.
    — Torno a repetir, nós nunca temos esse leite. O máximo que elas podem fazer é servir o leite com um por cento. Quando temos pouco leite com um por cento de gordura, misturamos com o de dois por cento. Para dizer a verdade, é o que elas costumam fazer — explicou minuciosa e calmamente a jovem empregada, apostando, inocentemente, na sinceridade.
    — Não é nada. Foi a primeira vez que o meu marido teve problemas aqui, após beber o café com leite servido por você.
    — Então desejam tomar o mesmo de sempre? — perguntou gentilmente, tentando encerrar o desagradável diálogo.
    — Sim, mas use, por favor, o leite sem gordura — insistiu a cliente.
    — Já lhe disse que não temos esse leite. Garanto-lhe que hoje mesmo o vou comprar e, amanhã, o seu marido será servido com o leite de zero por cento — respondeu, enquanto tentava um disfarçado exercício de respiração para que desaparecesse a desagradável sensação que lhe asfixiava as narinas.
    — Nesse caso, queremos apenas um chá — retorquiu a cliente, revelando indisposição com a situação.
    Dora, com mais vontade de desaparecer do que de trabalhar, virou-se e fez os dois chás. Normalmente, fazia o turno da noite. Os hábitos dos clientes do período noturno, ela conhecia-os todos, mas não os costumes ou manias dos clientes da manhã.
    — Bom dia. Este leite é zero por cento — informou ela ao servir o casal, na manhã seguinte. Eles não responderam.
    Não foi despedida, nem se despediu, mas foi proibida de comprar o leite zero por cento de gordura. Teve de enfrentar o sermão do patrão e o desconforto dos sorrisos e cochichos permanentes entre o casal e as colegas. Cada manhã, assim que acordava, fazia exercícios de respiração e pensava no motivo que a faria suportar o dia.
    Diante do espelho, fez uma promessa:
    — Eu seja ceguinha se não arranjo uma máscara que apresente um sorriso às coisas mais patéticas. Hei de provocar, no queixo de cada cliente, o sorriso mais idiota do mundo.
Riu:
    — Ah! E na hora em que só entram queixos de sorrisos idiotas... sorriso idiota também no meu — riu de novo.
    Nunca vira o café daquele ponto de vista: queixos rindo hipocritamente. Só queixos rindo. Queixos sem corpo, sem identidade. Queixos que gostam de mentiras que os façam rir e transparecer uma falsa importância, na esperança de que, de tanto fingir, se torne realidade. Gargalhou ao ensaiar um queixo de sorriso ridículo.
    — Sim, serei um queixo tolo como as minhas colegas e patrão. Não haverá queixo que se queixe de mim — riu de novo.
    Mas que paciência teria que ter para tanta hipocrisia! Adotou um queixo triste.
«A mentira é um doce nos ouvidos de alguns», concluiu.
    O queixo sorria enquanto representava a cena:
    — Bom dia, minha querida cliente. Aqui está o café do seu marido com leite zero por cento.
    E o queixo da cliente sorria, vaidoso. Depois, ela levantou o queixo e, ainda diante do espelho, prometeu:
    — Em breve, serás um queixo vitorioso.




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