Irritação
De tempos a tempos sinto uma certa irritação, um cansaço que não facilita o meu encontro com outras vozes.
Hoje entrei no café que frequento com certa assiduidade, tentando disfarçar que nem cumprimentar quem quer que fosse me apetecia. Ainda assim, cumprimentei algumas pessoas. Para não parecer mal-educada. Ninguém tinha culpa do cansaço e da insatisfação que me dominavam.
Acompanhava-me uma estranha batalha entre os sonhos e uma realidade que me afastava dos meus propósitos pessoais. Sentia-me enrolada por uma teia que me lançava sem direção. Enrolava-me, embrulhava-me.
Discernimento? Defesa? Não sabia deles. Certamente encontrava-me alinhada com uma vibração inferior. Se o que sentia pudesse ser visto pelos outros, eles presenciariam impulsivas energias a quererem criar um espaço onde apenas coubesse eu. Se procurava por privacidade, por que fui até um lugar com a porta aberta a qualquer um? Teriam o direito de perguntar.
Por vezes, quando obstinados pensamentos teimam em retirar-me o sossego, procuro-o em certos ambientes públicos. Aqueles onde imagino que poderei ter alguma privacidade e, simultaneamente, alhear-me do que me apoquenta quando em completa solidão.
Três homens conseguiam dominar todo o espaço. Os diferentes sotaques de cada um importunaram-me tanto que peguei na chávena do café e fugi para a esplanada.
«Há males que vêm por bem», pensei, perante a presença do sol. Sentei-me na mesa mais afastada das demais e soube-me bem tanto a cor como a maciez das almofadas vermelhas que adornavam as cadeiras de ferro.
A paisagem não era das melhores. Perto dos meus pés estacionavam os carros e, a cinquenta metros, passava o agitado tráfego da rua 97, que cruza com a avenida 153. Embora não goste do som das grandes cidades, hoje soou-me mais suave do que as vozes dos três homens.
Apeteceu-me um segundo expresso. Coisa rara. Entrei de novo no café. Com alívio, vi que os homens se dispunham a ir embora. Já com a segunda chávena de café, voltei para a esplanada.
Ironia! Os meus três inimigos do momento hospedaram-se na «minha» esplanada, demasiado perto da «minha» mesa!
Coloquei a mão dentro da mala. Tateei pelo seu interior. Persegui o pequeno bloco de apontamentos. Teimoso, escondia-se entre tudo o que uma mulher normalmente guarda dentro de uma bolsa. Assim que o encontrei, comecei a escrever.
Os homens continuavam a falar e a rir. Falavam, riam e olhavam para mim. Talvez esperando que uma mulher sozinha se envergonhasse por estar ali, perto das conversas dos homens, ou talvez quisessem sentir alguma simpatia da minha parte.
Muito amiúde passavam pessoas a pé. Muitas delas eram mulheres árabes. A maioria, envoltas em longos e pesados trajes negros. Nunca consegui decifrar o olhar de nenhuma dessas mulheres.
O corte no tecido, apenas do tamanho dos olhos, parecia colocá-los num longínquo território, à mercê da mortífera e profissional tesoura da sociedade. O salto do país de origem para outro de maior liberdade, como o Canadá, não tem impacto suficiente sobre elas para que consigam, num arrebatamento de coragem, rasgar a cortina que as separa das crenças e tradições.
Meia hora depois, abandonei o local. Entrei no carro. Suspirei. Sorri.
O que faltou naquele encontro casual entre mim e os três homens?
Apenas um pouco de equilíbrio.
Eles deveriam trazer consigo a educação e eu, a tolerância.
Uma voz interior riu-se de mim.
— Eles nem sentiram a tua impaciência, a tua sofreguidão por sossego. Tanto que, do mesmo modo como os encontraste quando entraste no estabelecimento público, assim se mantiveram até ao fim. Tu é que sentiste a tua irritação. Apenas tu. E voltas para casa com o mesmo cansaço e a mesma insatisfação.
Ada Abaé
( 21 de Julho 2017, Edmonton, Canadá, - foto; a esplanada do café )

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