Véus de água

 


Assim como a água esculpe o seu leito,
cada experiência deixa marcas em nós.
Memórias e lições entrelaçam-se,
traçam o caminho
e guardam vestígios das vidas que tocamos
e das que nos tocam.




Contemplação

Na imensidade dos anos que voam,
tão rapidamente,
admiro o sutil encanto
de detalhes requintados,
penetrantes na vida.

Cegos pela busca do êxtase,
presos às aparências ideais,
banhamos os dias
em ilusões decoradas, vazias.

Contemplação que nos cansa
tão rapidamente,
tão rapidamente perde
o seu encanto!

Passivos diante
do esplendor da vida,
ansiosos por novas faíscas
de emoção,
com um poder sedutor,
desviamos nosso olhar
para caminhos desnecessários,
que perpetuam influências desconcertantes
e minam a essência da nossa alma.

Conduz-nos à inferioridade do ser,
torna-nos incapazes de descobrir
o atalho para a felicidade,
onde desabrocha a mais pura
verdade harmoniosa,
que nos oferece alegria
no momento exato
em que a precisamos,
mas que rejeitamos
por ser simples demais.

Antes de contemplarmos
as estrelas no céu,
deixemos que nossos olhos
vejam o que brilha
ao nosso lado!

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Imperfeição

Fica assim a perfeição,
sujeita apenas a palavra,
enquanto nós almas imperfeitas
não merecermos o conhecimento.

No entanto,
somos feitos da essência
que ensina a autenticidade,
a trazer à luz as falhas,
a força e a fragilidade.

Estendamos as imperfeições
no areal em dia de sol
e sequemos os fungos
para seguirmos caminho.

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Prefácio

    Véus de Água é como uma gaveta onde a autora foi guardando poemas de várias épocas. Reuniu textos escritos em diferentes momentos da vida num mesmo espaço e oferece-nos uma poesia completamente livre. Em alguns poemas já não habita: foram trampolins para um lugar melhor, como a ave migratória que parte do inverno em direção à primavera.

    A natureza está muito presente na vida dela e neste livro. Assim como a poesia. Não vive sem ela. Por isso, liberta-a para que desça ao Hades, passe pelo Purgatório e suba aos Céus.

    Tenho o privilégio de conhecer Ada Abaé de perto. Da vida, ela abraça tudo com a alma e depois seleciona o que fica perto de si, sem dramatismo. Enquanto está no mundo, observa-o; depois afasta-se e escreve sem medo.

    Embora muitos se refiram aos livros de poesia dizendo que «lê-se num sopro», não concordo. Talvez isso aconteça numa primeira leitura. Mas a poesia não se lê num sopro. Deixa-se entrar na boca, mastiga-se devagar. Saboreia-se até penetrar em todas as células. Foi assim que li Véus de Água, de Ada Abaé. Banqueteei-me.

Virgínia Orion

  Pode encontrar o livro aqui:

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