Trad Wife
Sentada no meu sofá, usufruo da perfeita ordem da minha sala. Um espaço ideal para filmar e lançar online, transmitindo a imagem de uma fada que, magicamente, mantém o seu lar num lugar acolhedor.
Depois olho, por cima das costas do sofá, para a cozinha aparentemente arrumada, que também daria para filmar, ainda que escondendo o que está longe da perfeição. Apenas eu sei o quanto os armários reclamam por organização, algo que as portas escondem. Há cerca de dois meses que esperam por mim. Ainda não será hoje que me dedicarei a eles.
Hoje, assim como em muitos outros dias, aguardam-me prioridades que me impedem de escancarar as portas, retirar todos os frascos, pacotes e afins, e desarrumar o balcão da cozinha. Sim, porque limpar e organizar também significa desarrumar.
Manter um lar não é tão leve como muitas influenciadoras, bem vestidas, de ar fresco e aparentemente tranquilas, tentam transmitir.
Eu apanho o cabelo ao alto, sem querer saber se está bem ou não, visto algo prático. E mãos à obra. Não quero nem necessito acrescentar a preocupação de estragar a roupa.
Uma dona de casa nem sempre tem tempo para desfrutar da ordem que criou. Quantas vezes penso: é hoje que me vou sentar tranquilamente no meu sofá e fazer um pouco de tricô, ler ou simplesmente apreciar a paisagem. Esses momentos são raros e muito breves.
O trabalho doméstico nunca termina. Refeições, roupa, louça, aspirar, limpar o pó repetem-se numa velocidade assustadora.
E há ainda tudo aquilo que ninguém vê. Não é apenas limpar, lavar ou cozinhar. Existe todo um planeamento antes de cada tarefa.
As redes sociais mostram frequentemente o resultado, mas raramente mostram todo o processo.
O conforto tende a tornar invisível o esforço que o criou.
Vejo mulheres a romantizar a vida de dona de casa, transmitindo à sociedade a ideia de que quem vive assim está isento de preocupações. Criam um cenário sublime, onde tudo parece simples, tranquilo e naturalmente bonito.
Lembro-me da minha avó, sem apoio nenhum, ocupando-se de tudo e de todos, exceto dela própria.
Era a última a deitar-se e a primeira a levantar-se. Começava o dia a preparar o pequeno-almoço para todos, enquanto fazia o almoço para o meu avô levar para o trabalho. Para além de manter tudo limpo, tinha os animais: galinhas, patos, porco, burrinho, coelhos e gatos.
Nos dias em que fazia pão, a azáfama dobrava. A costura ficava sempre para depois de tudo arrumado, após o jantar. Enquanto todos dormiam, ela costurava as nossas roupas.
Quando encontro, nas redes sociais, mulheres de voz doce, bem arrumadas, a fazer pão e a cozinhar como se fossem tarefas leves e simples, sinto tristeza pela mensagem que tentam transmitir, influenciando milhares de mulheres que sonham ser donas de casa, como se tudo fossem rosas.
É certamente agradável viver num lar bem cuidado. Chegar a casa e encontrar limpeza, ordem e conforto. Mas não devemos idealizar essa realidade ao ponto de levar os demais familiares a pensar que quem se dedica ao lar não precisa de ajuda.
Ainda há quem considere que o trabalho doméstico não é trabalho e, como tal, não merece remuneração. A dona de casa passa anos e anos a fazê-lo gratuitamente, quase sempre sem receber um simples “obrigada”.
Ada Abaé
escrito: sexta feira- 25 de setembro, 2026



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