O anel


Durante muitos anos, aquele castelo foi o meu mundo. Conhecia cada corredor, cada sala e os jardins, interpretados consoante a janela que escolhia. O castelo protegia-me e eu aprendera a gostar daquela proteção.
    As desagradáveis experiências com o mundo fora dele levaram-me ao isolamento. A sociedade tentara engolir-me e, por pouco, não me perdera completamente.
    Por isso, surpreendi-me quando aceitei o convite do príncipe para passar um dia fora do castelo. Preparei-me para partir.
    Vesti um vestido de passeio de seda azul-pálida, de saia ampla e cintura marcada. As mangas compridas terminavam em delicados bordados junto aos punhos. Sobre os ombros coloquei um xaile leve e, depois de prender o cabelo, coloquei um pequeno chapéu.
    As batidas do meu coração apropriaram-se de tudo ao redor. Ainda assim, as pernas obedeceram-me e desci a longa escadaria. Não havia damas de companhia nem qualquer segurança. Apenas o príncipe me esperava junto à carruagem. Vestia um elegante casaco escuro, de corte ajustado, sobre uma camisa branca. As calças escuras e as botas completavam o traje. Trazia um chapéu de abas largas.
    Estendeu-me a mão para me ajudar a subir. Aceitei-a, mas, antes de entrar na carruagem, voltei o olhar para o castelo. Numa das suas varandas estava eu: agredindo-me, desdizendo-me, negando-me, repudiando-me e gritando:
    — Volta!
    Depois olhei para o príncipe. Entrei na carruagem. Ele tomou o seu lugar, segurou as rédeas e partimos. Os portões ficaram para trás.
    Aveiro recebeu-nos com a tranquilidade de uma pequena cidade.
    Ao chegarmos, deixámos a carruagem e seguimos a pé em direção à ria. Casas de fachadas de cores suaves, portas estreitas e janelas abertas para a rua embelezavam o caminho. Pessoas passavam nos seus afazeres, algumas carregando cestos, outras parando para conversar.
    Gentilmente, ofereceu-me o braço e eu, confiante, apoiei nele a minha mão, coberta por uma luva de renda branca. O farfalhar do meu vestido na calçada e o seu gesto simpático de cumprimentar alguém, retirando o chapéu, envolveram-me numa aura mágica.
    Esquecera os meus medos.
    Seguimos em direção à água. Os canais atravessavam a cidade e, sobre eles, pequenos barcos moviam-se lentamente. Junto às margens, homens ocupavam-se das suas tarefas e, mais adiante, podiam avistar-se as marinhas de sal.
    Parei por alguns instantes. O movimento dos barcos, as vozes dos homens junto ao cais e o cheiro salgado da ria pareciam-me um quadro poético, silencioso e indecifrável.
    — Gostas? — perguntou ele.
    Movi a cabeça em sinal afirmativo.
    — Sabias que Aveiro nem sempre teve o nome que conhecemos?
    Neguei com a cabeça.
    — Não? Em mil setecentos e cinquenta e nove, D. José I elevou a vila de Aveiro à categoria de cidade. Mas, nesse mesmo ano, aconteceu algo que alteraria também o seu nome.
    Olhei para ele, curiosa.
    — O que aconteceu?
    — O último duque de Aveiro foi acusado de participar numa conspiração contra o rei e condenado por traição. Foi executado em janeiro desse ano. Pouco depois, a nova cidade recebeu outro nome: Nova Bragança.
    — Nova Bragança?
    — Sim. Por um Alvará Real, de onze de abril de mil setecentos e cinquenta e nove, Aveiro passou a chamar-se Nova Bragança.
    Continuei a caminhar, surpreendida com aquilo que acabava de descobrir.
    — E por que razão voltou a chamar-se Aveiro?
Ele sorriu.
    — Porque os tempos mudam. Quando D. Maria I subiu ao trono, em mil setecentos e setenta e sete, mandou que a cidade recuperasse o seu antigo nome.
    Olhei em redor.
    — Então caminhamos por uma cidade que já teve outro nome?
    — Exatamente.
    Deixámos as margens da ria e entrámos por ruas mais estreitas. Pequenas lojas e oficinas surgiam entre as casas. De algumas portas chegavam vozes e sons de trabalho, enquanto as montras exibiam os seus produtos.
    Eu observava tudo com curiosidade. Foi então que ele parou diante de uma pequena loja.     Olhei para a montra. Era uma ourivesaria. Entrámos. O espaço era pequeno e silencioso.     Na montra brilhavam anéis, brincos, pulseiras, relógios e pequenos objetos cuidadosamente dispostos.
    Atrás do balcão, uma senhora cumprimentou-nos.
    O príncipe, sorrindo, perguntou-me:
    — Qual é o anel de que gostas mais?
    — Queres que escolha? — perguntei, tentando esconder a surpresa.
    Olhei através do vidro do balcão. Os meus olhos pousaram num anel de ouro branco com um diamante. Simples, delicado, mas belo. O príncipe percebeu.
        — Gostas?
    Passei os dedos sobre o vidro da montra.
    — Gosto.
    A senhora retirou o anel e colocou-o sobre o balcão.
    Ele pegou no anel e perguntou-me:
    — Aceitas?
    — Sim — respondi, tentando esconder a emoção.
    O anel que brilhava no meu dedo simbolizava a escolha livre de sair do meu castelo.
    Quando deixámos a ourivesaria, olhei para a ria e vi todas as outras eu emergirem das águas, cantando felizes em sinal de aceitação.
    Era a minha essência a dizer sim ao compromisso com alguém que tivera a sensibilidade de me tocar na alma, disposto a caminhar comigo.
    Ele segurava-me a mão, agora sem a luva, e o anel brilhava discretamente no meu dedo.

    Pelas ruas de Aveiro, nenhuma carruagem de cavalos ou vestido de seda, apenas nós, um casal a passear no século XXI, com tempo para amar.

E eu, a borbulhar de gratidão por a vida me ter oferecido um homem que, naturalmente príncipe, me fizera sentir princesa.



Ada Abaé
escrito em- 13 de setembro- 2026

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